Ações: Será mesmo apenas especulação?

Dando continuidade a substituição momentânea de Carlos Herrera, estou eu (Vitor Mizumoto) aqui novamente em nossa newsletter, que retorna aos cuidados do chileno-brasileiro na próxima edição.

Na newsletter dessa semana, com o fim de um ano de bastante movimentação no mercado acionário (que é o que se espera dele mesmo), e a quase finalização de um biênio bastante positivo para investimento em ações brasileiras, dado que o índice Ibovespa apresentou valorização de 73% entre o início de janeiro de 2016 e o dia 21 de dezembro de 2017, achei oportuno falar sobre um assunto polêmico, principalmente para os que não entendem muito desse mundo, e o assunto é: investimento em ações é considerado um investimento produtivo ou apenas especulação?

Em períodos de bons ventos para o mercado acionário, acredito que esse assunto seja quase que inevitável nas rodas de amigos e familiares, quando sempre surge aquele seu parente/amigo que nunca comprou uma ação, mas é o primeiro a soltar aquela: “investir em ações é só especulação. Compre um terreno, construa uma casa e venda…”

Sem entrar no mérito de atratividade entre as duas formas de investimentos em termos de potencial de valorização, uma vez que essa comparação dependeria de um grande número de variáveis (quanto foi pago pelo terreno, o que será feito com ele, região, custo do carrego etc.), gostaria de aproveitar esse espaço para discorrer um pouco sobre esse assunto.

De fato, com o sobe e desce diário das ações, as pessoas mais leigas tendem a comparar a tela do home broker com um cassino qualquer em Las Vegas. Porém, na verdade, a realidade é totalmente diferente. Se você já conhece o básico sobre o mercado acionário (se não, baixe nossos e-books sobre o tema), provavelmente já deve saber que aquela cotação aparecendo no seu home broker nada mais é do que a percepção de valor da empresa naquele momento, o que pode fazer sentido ou não (geralmente não faz, até porque os fundamentos de uma companhia mudam em velocidade muito menor do que as variações do valor de mercado durante o pregão).

Voltando ao seu amigo, quando ele julgou as ações como sendo um investimento não produtivo, suas premissas foram embasadas, muito provavelmente, na irracionalidade dos mercados em alguns momentos, dado o sobe e desce diário das cotações que acaba espelhando uma imagem bastante especulativa mesmo. Porém, não se esqueça: comprar ações é o mesmo que comprar empresas!…Ok, mas daí você deve estar se perguntando: “mas quando comprei uma ação, qual foi minha contribuição efetiva para as empresas, empregos, investimentos na economia real?”. A resposta é: TODA!

Para entender o raciocínio, tente inverter os papéis e procure entender a cabeça do dono de uma companhia, seja ela de capital aberto ou não.

Quando as ações estão subindo, os investidores estarão animados com as perspectivas de lucro das companhias e expansão geral da economia; sendo esse o momento em que as empresas escolherão para ir ao mercado captar dinheiro (via IPO/follow-on, por exemplo) para (i) fazer aquela tão necessária expansão do seu parque industrial, o que quando a economia estava mais fraca, não fazia muito sentido ou porque a demanda não era suficiente, ou porque o mercado de ações não estava favorável para captações (vimos bastante dos dois no último governo); (ii) lançar aquela nova linha de produtos; (iii) adquirir aquele concorrente; (iv) ou apenas para aproveitar a janela de oportunidade para colocar em ordem as finanças da companhia se ela estiver muito endividada.

A relação entre o mercado de ações e a economia real, apesar de poder se descolar no curto prazo, sem dúvidas é intrínseca no longo.

Resumindo: quando a bolsa está subindo, grosso modo, as empresas estarão mais próximas de seus valores justos, alimentando o animal spirit (confiança nas perspectivas dos negócios) dos empresários/investidores e, por consequência, a tendência de ir ao mercado (IPO) angariar recursos para investir. Logo, se o dono de uma companhia perceber que o valor da ação de sua empresa esteja desvalorizado em demasia, provavelmente ele irá preferir recomprar ações de sua própria empresa (se a companhia tiver caixa sobrando) paralisando investimentos de expansão do negócio. Do contrário, se as ações estiverem em valor que o empreendedor considere mais razoável, ele irá aproveitar a janela para fazer uma nova emissão de ações podendo, potencialmente, reinvestir no negócio, ou realizar o lucro de seu empreendimento para, talvez, investir em novas coisas.

Acredito que a esse ponto do texto você já tenha entendido a dinâmica da coisa e percebido que o empresário, quando vê suas ações sendo negociadas em patamar desvalorizado, muito provavelmente não realizará novas captações para fazer crescer sua empresa, dado que ele terá que entregar muito mais ações para os investidores para conseguir um montante razoável de recursos, o que o diluirá como acionista. Estando valorizadas as ações, ele irá a mercado, elevará capacidade produtiva, empregará mais pessoas e trará prosperidade ao seu país. Quer algo mais produtivo do que investir em ações? Agora vá lá e convença aquele seu amigo.

De maneira geral, achamos natural que esse tipo de percepção errônea sobre o mercado de ações ainda vigore no Brasil, uma vez em que estamos em um país ainda em processo de amadurecimento, o que reflete no próprio grau de desenvolvimento do mercado de ações também. Em países maduros, o mercado de ações é visto como uma das principais e mais saudáveis ferramentas de financiamento das empresas. Acreditamos que o Brasil passará por esse mesmo processo, o que deve beneficiar as empresas, os trabalhadores e os investidores, que ganharão novas opções de empresas para aplicar.

Ganham todos!

E é com esse texto que me despeço, por ora, dessa newsletter. Foi um prazer acompanhá-los nessas duas semanas.

Por favor, não hesite em nos enviar comentários ou dúvidas em nossos canais de atendimento e redes sociais.

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Um grande abraço a todos!

Vitor Mizumoto

 

Bancos – Banco Central dando uma força para a retomada do crédito – Vitor Mizumoto, CNPI.

Em mais uma das medidas da autoridade monetária em prol da elevação da eficiência do sistema financeiro, objetivo principal da sua agenda (nomeada de BC+), o Banco Central do Brasil reduziu as alíquotas dos recolhimentos compulsórios sobre depósitos à vista (de 45% para 40%) e a prazo (de 36% para 34%), o que deve culminar em uma liberação de crédito para a economia de, potencialmente, R$ 6,5 bilhões.

O compulsório é uma parte dos depósitos que os bancos são obrigados a deixar com o Banco Central, o que é utilizado pela autoridade monetária como uma forma de aumentar ou reduzir a atividade creditícia no país, o que na prática, é uma ferramenta de política monetária. Com a redução das alíquotas de forma horizontal, como foi feita, a autoridade libera mais recursos para que os bancos possam irrigar a economia. Resumindo: reduzindo as alíquotas do compulsório, o Banco Central ajuda a reativar o crédito, uma das principais alavancas do crescimento econômico.

Em nossos relatórios, já vínhamos falando sobre uma retomada importante dos volumes de crédito no Brasil em 2018, e já elegemos nossas ações prediletas no setor bancário, as quais os clientes do InspirAções já têm acesso.

 

Crédito Privado – Burger King e TCP– Elaine Rabelo, CNPI.

Nessa semana que passou, focamos nossas análises em duas companhias do mercado secundário de dívida, sendo elas: Burger King e TCP – Terminal de Contêineres de Paranaguá.

 

Recentemente, o Burger King Restaurantes fez o IPO na bolsa brasileira, o que resultou em uma captação de aproximadamente R$ 840,0 milhões diretamente no caixa da companhia. O recurso, que deve financiar a forte expansão nos próximos anos, também impacta seus indicadores financeiros e de crédito.

 

No caso da TCP – Terminal de Contêineres de Paranaguá, a antecipação do contrato de concessão exigiu investimentos de R$ 1,1 bilhão entre os exercícios de 2017 e 2019, que deve pressionar o fluxo de caixa da companhia e oferece risco de refinanciamento em 2019. Para ver as nossas recomendações para as duas companhias, assine o produto Renda Fixa.

 

Locamerica (LCAM3) – Progresso com Ordem – Alvaro Frasson

Na última terça-feira (19), iniciamos cobertura da Locamerica, motivados pelo excelente desempenho que a companhia veio reportando ao longo dos últimos trimestres. Decidimos conhecer mais de perto e analisar se, mesmo após a boa valorização de 2017, ainda há espaço para upside.

A companhia atua focada na locação de veículos leves para o segmento corporativo, onde é líder de mercado. Possui mais de 20 anos de existência, com uma característica de crescer através de aquisições. Após a fusão deste ano, a empresa atingiu novo patamar de frota e inicia um novo processo de captura de mercado.

O grande ponto de atenção está na baixa liquidez das ações, que travam o valor da companhia, uma vez que apenas 14% das ações, de fato, estão em circulação. Há comprometimento dos controladores em resolver esta questão ainda em 2018.

 

Embraer (EMBR3) – Negócios com a Boeing animam o mercado – Alvaro Frasson

Na última quinta-feira (21), foi divulgado, em Fato Relevante, por ambas as empresas, uma abertura de negociação entre as companhias para novos modelos de negócios. Segundo alguns órgãos de imprensa, há a possibilidade da negociação se tratar de uma compra do controle da Embraer pela Boeing. No entanto, no fato relevante anunciado, não há qualquer descrição do tipo do negócio: se é uma aquisição, fusão ou joint venture (como foi feito entre a Bombardier e a AirBus).

Vale destacar a existência de Golden Share (instrumento criado no governo FHC para evitar desconfiguração total de algumas empresas privatizadas) em poder do governo brasileiro, que por meio dele, pode vetar determinadas movimentações estratégicas da companhia, entre elas a transferência de controle acionário. Após este anúncio, o Presidente Michel Temer já comunicou que não tem intenção de transferir o controle da empresa em seu governo.

Em nossa opinião, este é um posicionamento inteligente para ambas as empresas e corrobora a perspectiva positiva que temos para a Embraer, mesmo um cenário desafiador em termos de vendas e concorrência para 2018.