Buffett e o segredo para atravessar as grandes crises da Bolsa

Buffett e o segredo para atravessar as grandes crises da Bolsa

A cena não é rara: “Estou com um dinheiro sobrando. Onde invisto?” Esta sobra geralmente é considerada como um peso morto em termos de retorno, e o interlocutor só se acalma quando essa posição é alocada em algum ativo. O que poucos sabem é que segurar uma pequena parcela da sua carteira em caixa, ao invés de investir em títulos longos do Tesouro ou em ações funciona muito bem em momentos imprevisíveis. Quando usamos a expressão “caixa”, neste contexto, estamos nos referindo às aplicações que podem rapidamente virar dinheiro. Tesouro Selic é um bom exemplo.

Ter liquidez, dinheiro na mão, oferece ao investidor a flexibilidade para comprar um ativo a preços de banana quando uma grande oportunidade aparece na Bolsa. O problema é que só lembramos desta lição quando a oportunidade aparece – e ela não costuma durar muito tempo. A semana que passou foi um ótimo exemplo.

Eis que na última quarta-feira à noite, com a Bolsa já fechada, surge em todos os noticiários e sites a notícia mais bombástica dos últimos anos. Michel Temer, Presidente da República, teria supostamente sido flagrado em áudios compactuando com o pagamento de propinas ao ex-Presidente da Câmara, o encarcerado Eduardo Cunha. No dia seguinte, o cenário era de uma guerra. Ações em fortíssima queda, notícias desencontradas, e, para coroar, fechamento da Bolsa logo após a abertura por bater uma queda de 10% (Circuit Breaker). E aí, o que fazer nessa hora que sua carteira está derretendo?

Vamos usar uma história real, tão breve quanto ilustrativa: era o ano de 2008, um mês após a falência da Lehman Brothers, os mercados de ações estavam em queda livre no mundo inteiro.

Direto do olho do furacão, Buffett, sempre ele!, publicou uma carta no New York Times, (acesse aqui) aconselhando os investidores a seguirem seu exemplo e comprarem ações. Note, olhando para trás é fácil ver que os mercados se recuperaram por lá, batendo recordes sucessivos. O fim da história foi que de fato em 2009 as Bolsas engrenaram uma nova tendência de alta e o Velhinho de Omaha ganhou muito dinheiro naquele ano.

À época, porém, poucos compraram, com medo do que poderia acontecer nos dias seguintes. Repare o detalhe: só ter coragem não adiantaria. Naquele momento ele tinha dinheiro em caixa para investir. Sua visão pode ser resumida na seguinte passagem: Dinheiro disponível combinado com uma dose de coragem em uma crise não tem preço. Não se engane. Em países tidos como desenvolvidos também existem crises e dias de altíssimas incertezas e volatilidade. Os maiores acertos dos investidores de sucesso surgem exatamente nesses períodos.

Nesse momento, a aplicação em caixa pode ser vista como uma opção de compra (uma Call como chamam na Bolsa) de qualquer ação, com duas vantagens: não tem data de vencimento nem preço de exercício. A característica mais atraente das opções de compra é que elas oferecem ao seu detentor um ganho potencial ilimitado, ao restringir a perda máxima para o prémio pago pelo comprador.

Diferente do que muitos pensam, utilizar opções de compra ou venda (call ou put), não representa garantia alguma de compensar as perdas via valorização do derivativo. A regra não é binária. A dinâmica dos mercados de ações e opções são distintas, tais como sua liquidez e variação. Tentar convencê-lo do contrário é, no mínimo, falta de experiência. Não se preocupe com a espera até que a oportunidade certa apareça. Ao contrário de uma Opção de Compra tradicional, não existe um prazo limite, não há pressa.

A irracionalidade dos mercados podem demorar a aparecer, mas não falha nunca. Uma hora ou outra alguma notícia desagrada o mercado e a Bolsa despenca. O investidor tampouco precisa definir de antemão o preço exato da compra. Em vez disso, ele pode esperar sereno e focado, para investir esse caixa somente quando houver assimetria bastante convidativa entre risco e retorno. O incrível é que por mais que essas oportunidades de tempos em tempos sempre apareçam, esse tipo de investidor sempre será a exceção, não a regra. A maioria ou não terá a coragem para agir quando há sangue nas ruas, ou faltará o dinheiro disponível para ir às compras. Investidores de sucesso não costumam desperdiçar essas raras oportunidades! Claro, essa posição em caixa na carteira carrega um custo de oportunidade, relativo à diferença nos retornos entre outros ativos de desempenho potencialmente mais alto e o retorno sobre as aplicações de liquidez imediata.

Por exemplo, se você decidir ficar alocar em uma LCA pagando 75% do CDI ao invés de investir em ações ou mesmo em uma NTN-B do Tesouro Direto, que atualmente paga em torno de 11%, seu custo de oportunidade será a diferença entre os rendimentos de cada uma das modalidades. Este deve ser visto como o preço a ser pago para ter essa disponibilidade imediata. Segurar posições de liquidez na carteira é considerado por muitos como um ativo sub-ótimo a longo prazo, especialmente em momentos como o que víamos em 2017, até a última quarta, com Bolsa brasileira em forte alta. Mas algumas vezes, períodos de incerteza oferecem oportunidades de ouro abertas pelos movimentos exagerados do mercado. Nesse momento ter essa uma pequena parcela em caixa é fundamental, pois não há garantias que as janelas irão durar por muito tempo. O evento dessa semana serve como lição: considere a posição em caixa não como um peso, mas como uma opção de compra sem vencimento. 

PS: Buffett voltou a fazer caixa por lá e já tem a bagatela de 86 bilhões de dólares no bolso. 

Bom domingo e ótimo final de semana!