Em casa que falta pão

No mercado financeiro foi uma beleza – quem participou do rally de compras dos últimos três dias vai passar o fim de semana bem-humorado.

Há muitos ditados populares que refletem o atual momento no Brasil. Para fechar a semana, tem um que cai como luva: em casa que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão. Entre gritos, pontapés e bravatas, políticos pró e contra o governo, entidades institucionais, variadas instâncias da justiça e cidadãos de todos os cantos do país gritam ao mesmo tempo na tentativa de impor a sua verdade, a sua versão dos fatos. Quando a noite cai e o universo silencia, entendemos apenas que ninguém saiu ganhando – ou quase ninguém.

No mercado financeiro foi uma beleza – quem participou do rally de compras dos últimos três dias vai passar o fim de semana bem-humorado. A bolsa de valores de São Paulo subiu 18,7% em março, mais do que todo o ganho do ano de 2016, que foi de 17,2%. No finalzinho desta sexta-feira foi hora de realizar lucros e vender mais caro o que tinha sido comprado mais barato, deixando o índice da Bovespa fechar no vermelho, mas ainda acima dos 50 mil pontos. No mercado de câmbio não foi diferente, com o dólar terminando a semana em R$ 3,58 – menor patamar desde agosto do ano passado. Não é só no balcão que está a euforia, o interesse por ativos brasileiros está percorrendo todas as possibilidades.

Enquanto a política se engalfinha nas ruas, no plenário da Câmara dos Deputados que trabalha como nunca para acelerar o processo do impeachment da presidente Dilma, e nos tribunais de justiça, a economia brasileira segue combalida. Aproveitando que o foco está virado para o outro lado, a turma do Ministério da Fazenda vai tecendo saídas mirabolantes para lidar com o rombo das contas públicas. A última novidade, de tão complexa, parece tosca. Numa operação que envolve títulos públicos, o Banco Central e o Tesouro Nacional, o governo quer fazer uma mágica para reduzir a relação da dívida pública com o PIB e mostrar para o mundo que não estamos tão mal assim.

Para sermos corretos, a ideia – que é a criação de reservas bancárias remuneradas – vem sendo adotada por muitos bancos centrais do mundo e pode fazer sentido. Mas é preciso haver estabilidade econômica e credibilidade do governo para que o instrumento seja eficiente e produza bons resultados. Não é exatamente o caso do Brasil agora, convenhamos. Nelson Barbosa, ministro da Fazenda, e líder do movimento, deve mandar para o Congresso Nacional na próxima semana, um projeto que inclui a novidade acima, estabelece regras para uma renegociação da dívida dos estados e criação de um teto para o gasto público. Resta saber com qual Congresso Nacional Barbosa está contando.

Bom fim de semana a todos