Eu te disse, eu te disse

A gente bem que pode repetir o bordão do Confuso para analisar o comportamento do mercado financeiro no pós-impeachment. Confira no post de hoje.

O Confuso de Carangos e Motocas sempre tinha razão. Toda vez que a Turma do Chapa se dava mal – o que acontecia em 100% dos episódios do desenho animado – a motoneta repetia para os chefes da “gangue”: “Eu te disse, eu te disse”, remendando os mais velhos com bordão moral que lembrava a todos que a trapaça não prospera. No desenho criado pelo estúdio Hanna-Barbera nos anos 70, a gangue de motocicletas agia em nome do amor já que o líder era apaixonado por Rota, uma fusquinha conversível, namorada do protagonista.

Nós não temos nem o charme, nem a ingenuidade dos saudosos personagens, mas a gente bem que pode repetir o bordão do Confuso para analisar o comportamento do mercado financeiro no pós-impeachment. Afinal, a Eleven Financial vem resistindo na ponta realista do mercado, que alguns chamavam de pessimista, desde que a euforia com as promessas do governo legítimo de Michel Temer tomou conta. Assim como não havia lastro nos fundamentos econômicos para tamanha valorização dos ativos financeiros, não havia sentido acreditar que Temer desfilaria com liberdade e vigor na passarela esburacada da política brasileira.

Claro que havia espaço para corrigir o excesso de pessimismo que imperava até a instalação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Aquele movimento também foi muito intenso e passou do ponto. Mas as expectativas que foram se fortalecendo diante das derrotas de Dilma Rousseff e do PT também avançaram além do sinal.  O sinal mais evidente disso é o comportamento recente da bolsa de valores de São Paulo. O Ibovespa bem que tenta, mas não consegue atravessar a barreira dos 60 mil pontos. Nós mesmos da Eleven chegamos a acreditar que isto poderia ter acontecido há duas semanas. Desde então, por tudo que aconteceu no Brasil e também lá fora, está explicada a dificuldade de transpor a barreira dos 60 mil.

O Ibovespa começou a semana tentando se animar com a viagem de Michel Temer e sua comitiva à China, num rastro das boas novas dos acordos de até R$ 15 bilhões assinados na semana passada com os chineses. Mas não deu para sustentar uma alta com tão pouco volume por conta do feriado nos EUA. Ainda mais depois de deflagrada a Operação Greenfield para investigar os rombos nos fundos de pensão das maiores estatais brasileiras. Além de dezenas de mandados de busca e apreensão, a operação da Polícia Federal levou de volta à cadeia o empreiteiro da OAS, Léo Pinheiro. Também foram depor os executivos da JBS e o dono da WTorre. 

O esquema que teria sido montado nos fundos para financiar negócios do governo do PT pode ter causado rombos de até R$ 50 bilhões! Como se animar diante de mais um buraco desses? O Ibovespa oscilou no negativo e acabou fechando com leve queda em 59.556 pontos. A JBS liderou as maiores perdas – queda de 10% nas ações – por causa da condução coercitiva de um de seus maiores sócios. Vale lembrar que lá em Junho, quando as expectativas pareciam apontar tudo para cima, alertamos para o grande risco das questões “ocultas” da companhia. Em Análise JBS. É Friboi, mas e daí? deixamos todos os nossos clientes atentos e fundamentados para suas decisões de (não) investir nos papéis.

Outra forte evidência é o comportamento da moeda americana. O dólar subiu nesta segunda-feira (05), quase encostando dos R$ 3,30. O feriado nos Estados Unidos ajudou a melar os negócios, mas mesmo assim, o câmbio sentiu a temperatura política daqui e o surgimento de obstáculos desagradáveis diante dos desafios do agora legítimo governo do PMDB. Com o feriado nacional de 7 de setembro, não se deve esperar movimentos mais fortes no mercado financeiro da semana, mas a abertura ao mau humor já aconteceu.

A Turma do Chapa não desistia de tentar um “plano infalível”, com o perdão pela mistura dos personagens, pensando que um dia, quem sabe, ele conquistaria o coração de Rota. Na vida real é um pouco diferente e, cada vez que surgir uma ameaça ao equilíbrio, ou à tentativa de recuperação dele, a principal protagonista da nossa crônica diária vai ficar mais distante. A mocinha da história brasileira é a Confiança. Quem sabe o conformismo um tanto quanto altaneiro de Confuso seja capaz de dar ao mercado uma dose de cautela para o que está por vir nos próximos episódios da novela nacional.  Assim, o “Eu te disse, Eu te disse”, pode ser dito em coro para que Brasília escute e acate os riscos das aventuras na condução do país.