A fábula do longo prazo: Free Float x OPA

Era uma vez uma ação. Uma daquelas que todo mundo tem certeza que tem fundamentos excelentes. Pouca gente conhece a fundo...

Era uma vez uma ação. Uma daquelas que todo mundo tem certeza que tem fundamentos excelentes. Pouca gente conhece a fundo… as portas nunca foram realmente abertas para que alguém de fora pudesse “cobrir”…

A liquidez não era ideal, o papel parecia que muito pouco circularia ainda que valorizasse de maneira incrível no longo prazo. Havia um grande acionista controlador. O modelo de governança era um tanto tradicional, daqueles que pregava que todas as regras estabelecidas no começo fossem absolutamente cumpridas independente de quanto mudasse o cenário macro ou quantos fatos relevantes impactassem o então chamado de “Plano Zero”.

A valorização da ação (ou seu potencial) passou a ficar muito mais clara para aqueles que olhavam o mercado com atenção do que para o acionista controlador. Não havia tag-along ou drag-along. Havia uma pressão interna muito forte para que a condição de liquidez e circulação da ação mudasse substancialmente. O controlador não aceitava, não permitia que a demanda inequívoca movimentasse aquele papel.

Precificação não era o problema. Não havia discussão de valuation. Todas as sopas de letrinhas das análises fundamentalistas não eram capazes de mudar o status quo da companhia.

Com-pa-nhia. O papel estava cada vez mais descolado do macro-ambiente. O volume, a percepção e a valorização recebida estavam muito aquém do potencial. A ação estava sozinha. A pressão começou a aumentar. Movimentos internos chamavam cada vez mais atenção para a possibilidade ou a necessidade de um “follow-on”. Era quase impossível impedir que a fila andasse. O controlador tentava impedir.

O excesso de liquidez do mercado fazia com que a pressão ficasse cada vez mais insustentável. Um dia, em um momento de crise, a relação de controle foi rompida. A capacidade da ação ganhar valor, crescer, deixar de “estar” e passar a “ser” valiosa venceu a força do controlador.

Com-pa-nhia. A ação ganhou relevância, atratividade, passou a entregar resultados. Pouco importava àquela altura os interesses por tantas vezes arcaicos do controlador. Era hora dela brilhar. Aqueles que sempre acreditaram na valorização seriam recompensados com prêmios jamais vistos. Eram poucos é verdade. Sábios e determinados. Acreditaram nos fundamentos.

Com-pa-nhia. Àquela altura já eram duas subsidiárias, com características muito diferentes e ainda com um alto grau de influência do controlador. Mas a dinâmica trazida pelo movimento de imersão no mercado, mudança de patamar que a ação conseguiu era um caminho sem volta. Qualquer analista já era capaz de perceber que tudo havia mudado.

Muito passou a discutir-se sobre o limite de valorização. Notava-se uma sequência dura de conflitos internos e divergências na hora de tomar decisões estratégicas e na compreensão do novo futuro da ação.

Com-pa-nhia. Ao mudar de patamar ela parecia isolada. Não estava. Cada vez mais tinha seu risco pulverizado. Suas frentes de desenvolvimento cresciam, solidificavam e o upside potencial parecia não ter limite.

As regras convencionais e anteriormente praticadas de gestão e planejamento não mais funcionavam. O mercado havia mudado. Os riscos eram outros. Os diferenciais eram mais claros, porém o evidente conflito entre aceitar o novo caminho ou recorrer à obsoleta modalidade de administrar ficava insuportável.

Quase meio século de companhia. Quase quinze anos de capital aberto. Seu valor estava mais que provado. Cabia aos comandantes aceitar que o destino invariavelmente traz uma pesada dose de ironia consigo.

Nem tudo o que outrora funcionou será capaz de entregar resultados no futuro. As subsidiárias crescem, fortalecem a tal ponto que ganham vida e abrem seu próprio capital. O inevitável spin-off do ciclo de crescimento dá a clara sensação de perda patrimonial, mas nada mais é que o reequilíbrio dos ativos a partir do qual todas as frentes alcançarão seus resultados.

Com-pa-nhia. Tudo mudou. Liquidez, projeção, riscos. Incrivelmente seus fundamentos continuavam sólidos. Muito foi discutido. Consultores contratados, executivos que vinham e iam. Falavam em “OPA”. Aquela ação que tanto havia brilhado sairia de circulação.

Fechar o capital. Medida aparentemente pragmática de proteção pode ser absolutamente restritiva. Para uma empresa com tanta vida, tradição, conquistas, vitórias, derrotas e histórias de superação tudo era possível. E aí vivia o grande dilema.

Governança. Boas práticas. Ar! Tempo, espaço e valores redesenhados. A clara capacidade de compreender o que a serenidade da experiência traz. Trovões, tempestades, relâmpagos, meteoros… tinha de tudo no caminho. O papel não estava mais valorizado. Ele ERA a expressão clara do valor. Um caso único de oportunidade perene.

Não havia índice, parâmetro, rating ou análise gráfica que fosse capaz de expressar quão sólida era a com-pa-nhia. Todos os personagens haviam mudado, o macroambiente virado, a demografia alterada, a logística impactada. Era mudança demais… estava resolvido… era o único caminho…

OPA! Ah que nome sugestivo para o caminho a tomar. Chegando ao consenso do que fazer, a OPA acordou a todos… O papel voltou a circular, a mostrar liquidez, a performar… as variáveis de risco eram completamente diferentes, mas não é sempre assim na vida???

Free-Float. Absolutamente mais alinhado com os reais interesses da com-pa-nhia. Sozinha ela não seria a mesma coisa. Os ciclos mudam e a criação de valor no isolamento é mais difícil. Quanto ao primeiro controlador? Não sabemos onde foi, mas as subsidiárias brilhavam escrevendo suas próprias histórias e eram a certeza de que todas as escolhas foram perfeitas, cada uma a seu tempo, com seus ganhos ou perdas.

Era o que dava para fazer, em cada um dos momentos. A história que parecia toda escrita ainda guardava material demais para ser reduzida, controlada… deveria ser vivida!

OPA? Que bom que você veio… e passou…

Tudo passará…. e eu passarinho