Fed e você: tudo a ver!

Dia movimentado nos EUA pode trazer pressão às bolsas globais. Por aqui, rombo fiscal e votações no Congresso sustentam o racional de apreensão.

Hoje foi divulgada a ata da última reunião do comitê de política monetária norte-americano, o FOMC. Os parceiros de Janet Yellen deixaram claro suas leituras sobre os riscos associados à política expansionista alardeada pelo Presidente eleito Donald Trump durante a campanha.

E aqui entramos em uma questão que nosso time debate há bastante tempo. Expansão da atividade com investimentos em infra-estrutura, demandando excessivamente mão-de-obra de base, quando combinado com quadro de pleno emprego, traz riscos iminentes de ineficiência, rotatividade, custo crescente de serviços menos especializados e consequente repasse aos preços. In-fla-ção. Mais do que isso, artificialismo de preços em setores como construção civil. Mas imaginamos que esta lição o Tio Sam já aprendeu.

Muito bem, mas não é isso o que eles buscam por lá? Inflação? Enquanto Trump fala de uma suposta estagnação econômica e, ao pregar suas teorias de desenvolvimento, enche de alegria os heterodoxos, o FOMC aumenta seu alerta para a necessidade de intervenção buscando a neutralidade defendida por Yellen. Leia-se, taxa básica de juros que sustenta a inflação no alvo esperado com os níveis de desemprego dentro do considerado ideal.

No fim do dia, seguem as notícias boas para o mercado brasileiro. PMI da China e da Europa em níveis acima do esperado arrefece a preocupação com retração em dois dos grandes mercados globais. Ainda que a taxa de juros americana suba em velocidade maior e o nosso Copom tome a dose de coragem esperada (e desejada) por nós, o espaço entre as remunerações ainda será substancialmente grande. Sendo assim, ainda vai ter dinheiro disponível suficiente para recebermos nossa cota de suporte para a Bolsa.

Se a Casa Branca faz o que ninguém faria pelas commodities metálicas, do lado do petróleo, como chamamos recentemente, as reuniões e pactos da OPEP mais parecem reuniões de condomínio, nas quais cada um defende o seu e no fim das contas, faz o que quer. Paga uma multa eventual e a vida segue. Mas quem ta aí para eles, se Pedro Parente segue firme no plano de desinvestimentos e o novo aumento está aí, já no aquecimento… quase assinando a súmula.

Curioso é o ceticismo do mercado com a isonomia de tratamento dos preços dos combustíveis para o cliente final, mesmo com a demonstração da Petrobras de que claramente vai mexer nos dois sentidos. Investidores pressionam o DI e apoiam os papéis PETR3 e PETR4, considerando que o brasileiro da economia real, aquele moço lá do “posto Ipiranga”, vai fazer qualquer coisa menos baixar sua margem. E o resultado? In-fla-ção.

Qual a diferença dos indicadores? Lá eles precisam da inflação. Aqui ninguém mais quer o dragão. A coisa tá tão feia que São Jorge, assim como o preço da gasolina, já está no aquecimento. Justo ele que achou que já tinha matado o dragão. Abordamos isso em detalhes em nosso Relatório Macro Brasil 2017.

Enquanto isso na Bovespa… Os mesmos R$ 6 bilhões de movimento de ontem, em um dia muito mais turbulento e menos bem humorado. A apreciação constante do Real, que hoje levou a cotação para os R$ 3,22, machuca as exportadoras. Assim, as companhias de papel e celulose registraram três das quatro maiores quedas do dia no índice Ibovespa. KLBN11 -3,7%, SUZB5 -2,5% e FIBR -2,4%.

Na ponta de alta, USIM5 descola de todos os seus pares, subindo 6%, por conta do anúncio do aumento de preço em aços laminados. É nossa leitura que os desafios da siderúrgica mineira são muito maiores do que os preços dos seus produtos, o que não invalida o suspiro. Tem mais cara de desistir logo da terapia de casal entre Ternium e Nippon e tentar um divórcio litigioso com controle de danos. Mas quem para para pensar com uma notícia destas? Compra que a gente vê depois.

E os tais “minutes” do FOMC trataram de todos os assuntos que mais nos preocupam por aqui. Economia, juros, inflação, desemprego. Nem parece que estão lá, tão longe… mas bem que queríamos que aquela realidade fosse a nossa e que pudéssemos realmente dizer que realmente nós e FED temos tudo a ver!