Gourmet Monday: Batata assada ao molho de Vix

Gourmet é o nome que se dá a um estilo de culinária mais elaborada, requintada e que atende as exigências do consumidor com gosto mais apurado em relação à qualidade e apresentação do prato ou da bebida.

Querendo ou não chegamos à Era do investidor, ou mesmo do trader, gourmet!

Tudo é mais sofisticado, mais complicado, mais dinâmico, aumenta o apetite de todos e, quando consumido em exagero, pode causar estragos.

Tanto quanto na cozinha contemporânea, o óbvio perdeu o lugar. E aqui mora um dos principais perigos. Quando tudo parece claro como cristal e todos parecem usar o mesmo tempero, vem um novo movimento e chacoalha tudo, reordenando as coisas e promovendo uma seleção natural.

Lá estava uma massa incrivelmente grande de traders e investidores, esquecendo que, se o sal for exagerado, se a pimenta extrapolar o limite, aquele “spicy taste”, tão diferenciado, pode virar um pesadelo.

O cardápio de ingredientes do investidor internacional ficou tão extenso, que o foco parece ter sido perdido. Era óbvio e ululante que a farra dos bonds chegaria ao fim. O quantitative easing, ou seja, a licença para imprimir dinheiro, foi uma medida criativa, extrema e que mudou definitivamente a dinâmica dos ativos.

Escrevi na Carta do Estrategista do nosso relatório macro de fevereiro de 2017 a seguinte passagem:

A tal onda do quantitative easing. Let’s Rock n’Roll. Injeção de TRILHÕES de dólares em circulação. É fato que as bolsas globais historicamente antecipam movimentos da economia real. O que pouca gente parece aceitar, é que 2008 mudou tudo! Os patamares foram alterados, o gap entre mercado e realidade catapultado a um nível jamais esperado.

Os pontos indicativos nos índices como S&P500, DJI, CAC40, Ibovespa e afins, são, em essência, reflexos do que deveria ser a soma dos valores das companhias cujas ações compões cada um dos índices. Acontece, que em fluxos abissais como este, abre-se um perigoso espaço entre preço e valor.

Se há tamanha necessidade, e realmente há, de sustentar os atuais patamares de “preço” das Bolsas, a discussão sobre relação direta entre juros, inflação e atividade econômica ganhou definitivamente mais do que uma nova variável na fórmula. Um meteoro mudou o modelo! Modelagem econométrica que não considerar “ONDE REALMENTE ESTÁ O DINHEIRO” terá tanto uso quanto um bom rolo de filme 36 poses da Kodak.

A reação de muita gente nesta segunda-feira, me lembrou os movimentos do início de janeiro de 2016. Naquela janela, o Shangai Composite, principal índice da Bolsa chinesa, saiu dos 3.627 pontos em 25 de dezembro de 2015, para 2.900 pontos em 15 de janeiro de 2016. 20% desapareceram em 20 dias. Azedou o molho chop suey. Desde então, a Bolsa chinesa não recuperou o mesmo nível do Natal de 2015.

Exatamente na mesma janela temporal, o S&P500 caiu dos 2.060 pontos para 1.880 pontos. Aproximadamente 10%. Mas lá estava o Tio Sam, com todas os seus ingredientes em estoque e o que vimos foi uma virada épica, trazendo o principal índice da Bolsa norte-americana aos 2.872 pontos. Valorização de 52% em 24 meses. Na ordem de grandeza de um mercado maduro, é um número astronômico. Os 7,8% de queda do ponto máximo, registrados nesta segunda-feira, estão longe de ser uma azedada no molho barbecue do Trump White House Golf Resort & Spa.

A economia global está muito mais alinhada do que em 2016. A expectativa de juros mais altos nos EUA, inclusive o lobby por eles, repete-se exatamente um ano após a chegada do Commander-in-Chief à presidência. Há um ano, falávamos em “trade war“, programas expansionistas e desequilíbrio nos ativos globais por conta da demissão (que nunca houve) de Janet Yellen e a chegada de um novo Chairman, com postura hawkish e pouco importando-se com os efeitos mundo afora.

Hoje foi um daqueles chamados, “acceleration events“. Na culinária, o bolo queima, a carne fica dura, o peixe estraga e o limão não serve nem para molho. Na carta do Macro que citei acima, perguntei sucessivas vezes “ONDE ESTÁ O DINHEIRO”? A migração que mais assustou o mercado foi a chegada de uma nova receita. Historicamente alocados em bonds, o capital migrou para os chamados ETF’s (Exchange Traded Funds), os fundos de índice. Ativos de liquidez muito maior e com dinâmica muito similar àquela das ações. Me preocupa um pouco o impacto de eventos como hoje nesta indústria, que jamais viveu um bear market!

Esqueceram da volatilidade, do risco e da necessidade de controlar a temperatura dos fornos, do nível dos ingredientes e muito menos do balanceamento das dietas. Hoje foi dia do VIX. Este foi o tempero das batatas de diversos investidores que assaram não nas temperaturas tradicionais, mas em caldeiras de alta performance e foram esturricadas pelo calor e pela velocidade.

A negação da possibilidade das realizações durou tempo demais na cabeça e nos bolsos de Wall Streeters mundo afora. Estragaram o jantar antes da sobremesa? É hora de virar vegano?

Nada disso. Literalmente, pague a conta e siga em frente. Como diriam os escoteiros de antigamente: “sempre alerta”!

Amanhã tem mais!

Você pode baixar a íntegra da Carta do Macro de Fevereiro de 2017 aqui, incluindo a analogia feita da TQM (Teoria Quantitativa da Moeda) com as formas de gerir juros e inflação no século XXI.