A verdadeira lição da última crise política (e das próximas)

Qual foi a maior lição da crise política que afetou a Bolsa ultimamente?

Abrindo o tema sobre crise política, o psicólogo ganhador do prêmio Nobel de economia Daniel Kahneman, disse certa vez em uma entrevista:

“Sempre que nos surpreendemos com algo, mesmo quando admitimos termos cometido um erro, dizemos: nunca mais cometerei esse erro. Mas, de fato, o que você deve aprender quando cometer um erro porque não antecipou o que estava por vir é que o mundo é difícil de antecipar. Essa é a lição correta para aprender com as surpresas: o mundo é surpreendente.”

A maioria das pessoas concorda, mas pôr em prática é uma tarefa muito difícil. Qual foi a maior lição da crise política que afetou a Bolsa nas últimas semanas? Alguns comentários mais comuns foram:

(1) Dava para imaginar que o Temer estaria envolvido em algo, no mínimo, questionável;

(2) Os investidores estavam excessivamente otimistas com as reformas fiscais.

Ainda que estes comentários façam sentido isoladamente, são específicos para a crise política atual e, portanto, não oferecem conselhos sobre como evitar uma crise financeira futura. As pessoas querem aprender a lição para não incorrerem nos mesmos erros na próxima vez. Mas essa é a maneira errada de aprender com o que houve.

Aprender lições específicas só é relevante se a próxima queda na Bolsa for causada pelo mesmo motivo que a última. O problema é que quase nunca é. A próxima grande queda provavelmente não será causada pelas mesmas forças da última. Portanto, as lições específicas que aprendemos com cada crise podem não nos ajudar a navegar na próxima tempestade.

Eis aqui o problema: queremos pensar que a economia e o mercado de ações são racionais e lineares. Eles são mais fáceis de entender se os enxergarmos dessa maneira pois pensamos em padrões previsíveis. E se pensarmos que eles se movem em padrões previsíveis, assumimos que podemos melhorar simplesmente evitando o que não funcionou no passado. Engana-se quem crava esta verdade.

Isto o não significa que não podemos melhorar nossas decisões. Temos apenas que ser mais humildes sobre nossas lições, porque:

 ·       O futuro é incognoscível.

·       Previsões sobre a bolsa podem estar otimistas ou pessimistas demais.

·       A preservação do capital, e não o seu retorno, é a tarefa mais importante do investidor.

A lição mais útil da crise na Bolsa depois da delação do controlador da JBS, Joesley Batista, envolvendo o presidente da República, é que grandes riscos vivem escondidos e causam mais estragos do que você enxerga antes de ele se materializar. Mas calma, nem tudo está perdido.

A grande lição para as crises futuras foi ensinada há quase um século atrás por Benjamin Graham, um dos maiores investidores da história e pai do investimento em valor, em seu livro “O investidor inteligente”: “podemos resumir o segredo do sucesso nos investimentos em três palavras: Margem de Segurança.

É precisamente porque não sabemos nem conhecemos todos os riscos de um investimento que nos esforçamos para investir em ações quando elas estão negociadas com desconto relevante sobre seu valor estimado. Margem de segurança é alcançada quando uma ação é comprada a um preço suficientemente abaixo do valor para permitir erros humanos, má sorte ou extrema volatilidade em um mundo complexo, imprevisível e em rápida mudança. Quanto maior for esse desconto, mais tranquilidade o investidor terá mesmo quando as coisas derem errado.

A função da margem de segurança é, portanto, a de tornar desnecessária uma estimativa precisa do futuro. Se ela for grande o suficiente, então basta assumir que os ganhos futuros de determinada empresa não cairão muito abaixo dos do passado, para que você se sinta protegido contra as próximas tempestades. Menos dependência de previsões exatas, horizonte de tempo mais amplo para aguardar as coisas, e aceitar retornos mais baixos do que você preferiria no curto prazo.

Quando usamos cinto de segurança ao andar de carro, definitivamente não estamos prevendo se teremos algum acidente na viagem, muito menos como ele se dará. Mas sabemos que temos muito pouco a perder ao usá-lo caso tudo ocorra como planejado, mas pode custar nossa sobrevivência em um cenário negativo. Manter esta dose de conservadorismo ao escolher os ativos mais indicados dentro de uma carteira diversificada é muito indicado e irá te poupar de perdas definitivas no futuro.

Em suma, para o investidor inteligente, muito mais importante do que ficar procurando identificar precisamente quando será a próxima crise política, e de onde ela virá, é ter em sua carteira ações com uma margem de segurança confortável. Não à toa, afirmamos que a Carteira Eleven leva “nosso melhor juízo de equilíbrio entre risco e retorno”.

Ótimo domingo a todos!