Bounded Rationality!
Passados quarenta e quatros anos de quando Herbert Simon foi premiado com o Nobel de Economia, algumas de suas ideias parecem mais atuais do que nunca. Simon explorou muito a complexidade do processo de tomada de decisões, mergulhando na ideia da racionalidade limitada (bounded rationality). Ao longo desta carta vamos caminhar na jornada de entendimento do quão difícil está o cenário para tomadas de decisão de investimento, que no limite, são decisões estruturais do planejamento da vida de todos nós. Uma parcela de nossos futuros depende da maneira como alocamos nossos recursos (sentido amplo) no presente. E quando em nossa trajetória foi tão avassaladora a quantidade de (des)informação disponível, de variáveis incontroláveis e inesperadas? Bem-vindos a 2020 3.0, ou 2022.
“O que a informação consome é um tanto óbvio: a atenção de quem a recebe. Assim, uma imensidão de informação implica em pobreza de atenção e a consequente necessidade de aplicar de maneira eficiente a atenção evitando a dispersão de foco”. (tradução livre) Herb Simon
Alteração estrutural na realidade global de juros, inflação e o momento ao qual tanto chamamos a atenção ao longo dos últimos anos, a chegada da hora do acerto de contas com a abundância de liquidez. Desde os primeiros movimentos do quantitative easing realizados pouco após o crash de 2008, começamos a cultivar o novo ópio do mercado. A liquidez! Em determinado momento do tempo, fomos capazes de questionar inclusive a TQM (Teoria Quantitativa da Moeda), afinal, com tamanha emissão de moeda, não eram registrados sinais de inflação. E aqui voltamos a Simon... será que não mesmo? OU só estávamos olhando para o lado errado?
Enquanto no chão, nas ruas, na economia real, parecia que o dragão da inflação não viria para retirar dos trilhos a locomotiva da mágica coordenada pelos maiores Bancos Centrais do mundo, debaixo dos nossos narizes formava-se o furacão que hje temos que enfrentar com pouco lugar para nos agarrarmos. A inflação estava nos ativos financeiros. Mas enquanto todos estão ganhando dinheiro, enquanto tudo vai morro acima, qual é o problema, não é mesmo?
Se voltarmos pouco mais de vinte e quatro meses no tempo, lembremos que passamos pelo processo de compreensão (e aceitação) da magnitude dos efeitos de uma pandemia global, uma disfunção hiperbólica de estímulos fiscais e monetários em todas as principais economias do mundo, Brexit, mudança de comando nos EUA, alteração na forma e intensidade das relações da China com o mundo, uma guerra entre Rússia e Ucrânia mexendo profundamente na cadeia mundial de abastecimento de energia e alimentos. Mesmo assim tem muita gente acreditando que há um atalho, um caminho óbvio e fácil para evitar e vencer o imponderável.
Voltando aos conceitos de Simon, a racionalidade limitada (bounded rationality) acaba levando os indivíduos (neste caso, investidores) a processos de tomada de decisão um tanto distantes do equilíbrio ideal. Simon afirmou que “a primeira consequência do princípio da racionalidade limitada é que a racionalidade pretendida de um ator exige que ele construa um modelo simplificado da situação real para lidar com ela.” Há uma combinação de três dimensões que são testadas em momentos como o que vivemos agora, de reversão de tendência e alteração brusca no comportamento esperado dos ativos: i) a elevação da incerteza reduz a quantidade de informação disponível (ao menos alguma que corrobore qualquer expectativa de manutenção da convicção de outrora); ii) ao se deparar com um cenário muito diferente do esperado, o investidor acaba passando por um processo de limitação cognitiva quando confronta sua expectativa com a dinâmica dos fatos; iii) a percepção de encurtamento do tempo para a tomada de decisão só faz elevar a pressão que muitas vezes o induz a desviar do plano inicial pela sensação de que a alteração transitória de quadro tende a se perpetuar e colocar em risco o plano incialmente traçado.
“Os seres humanos, vistos como sistemas comportamentais, são muito simples. A aparente complexidade do nosso comportamento ao longo do tempo é em grande parte um reflexo da complexidade do ambiente em que vive.” Herb Simon
Compreender limitações naquilo que move o ambiente, o mercado e os fluxos, é parte determinante de qualquer estratégia. Todos deveriam pensar em não permitir (ao menos não passivamente) perdas substanciais e relevantes e muito menos por períodos extensos, por mais que o conceito de longo prazo pudesse permitir tal arrimo retórico.
Lembrando outros dois grandes nomes da Economia Comportamental, Daniel Kahneman e Amos Tversky, chegamos à Teoria do Prospecto. Em resumo, as pessoas possuem a tendência de fazerem escolhas baseadas mais na possibilidade de perdas do que de ganhos. E as dores da perda superam a alegria das conquistas em uma razão de aproximadamente dois para um. Atualmente, depois de tanto tempo lidando com adversidades, os investidores tendem a assumir posturas contraintuitivas. Na mesma linha da Teoria do Prospecto, vem o viés cognitivo da aversão à perda. Agarra-se a posições perdedoras como se este movimento fosse evitar a materialização da perda. Infelizmente, no máximo impedirão que você reequilibre seu portfolio de maneira adequada.
A dinâmica dos ativos mudou. Isto é factual. Se é transitório, somente saberemos ex-post. Agora, devemos tomar as nossas decisões ex-ante. Preparados, compreendendo aquilo que cabe e importa em cada uma das vidas, cada uma das “caixinhas de liquidez”. Sim, o risco de liquidez deve ser absolutamente respeitado. Para cada parcela alocada, deve-se ter clareza do horizonte temporal ao qual aquele determinado investimento poderá capturar sem ser interrompido. Processo e disciplina. Deveríamos aproveitar a implacável realidade das nossas limitações para evoluir como investidores, como seres humanos. Deveríamos repudiar tentações dos atalhos, principalmente visando compensar consequências que tratamos como óbvias quando olhamos pelo retrovisor.
“Todas as coisas que nos acrescentem conhecimento, nos dão a oportunidade de sermos mais racionais. Os processos de tomada de decisão visam encontrar cursos de ação que sejam viáveis ou satisfatórios à luz de múltiplos objetivos e restrições” – Herb Simon
Esta carta traz consigo a intenção de mostrar aos investidores que o controle sobre o processo decisório é seu. Respeitar aquilo que não é claro, compreender as incertezas e criar um processo próprio de alocação de recursos, adequado ao seu momento, seu perfil e sua vida, são ferramentas disponíveis o tempo todo. A decisão de não usá-las é parte do livre arbítrio que trazemos conosco, mas é inexorável a realidade de que lidaremos com as consequências das decisões, logo ali, à frente.
“A função do conhecimento no processo de tomada de decisão é determinar quais consequências seguem cada uma das estratégias alternativas. É tarefa do conhecimento selecionar de toda a classe de possíveis consequências uma subclasse mais limitada, ou mesmo (idealmente) um único conjunto de consequências correlacionadas com cada estratégia” Herb Simon
Aproveitar a janela de oportunidades demanda exclusivamente uma decisão. Respeitar os efeitos e a consequência das decisões é um processo. Demanda disciplina, foco, responsabilidade e a humildade de respeitar o incontrolável. Que a segunda metade de 2022 seja de plantio consciente. O futuro é logo ali!
Adeodato Netto (Dato)
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Equipe Eleven Financial