Mercado e Bolsonaro: meu zen, meu bem, meu mal!

“Você é meu caminho

Meu vinho, meu vício

Desde o início estava você

 

Meu bálsamo benigno

Meu signo, meu guru

Porto seguro onde eu vou ter”

 

Depois de todas as tensões possíveis em um processo pré-eleitoral, o Ibovespa arrancou para entregar a segunda melhor performance de 2018, ao alcançar os 87.423 pontos e alta de 10,19% no mês.

Reforma de Previdência, tributária, desburocratização, privatizações e um governo liberal como “nunca antes na história deste país”. Tudo isto dentro de um pacote de promessas entregues na proposta de casamento feita por Paulo Guedes ao mercado financeiro. Família, filhos e valores conservadores. Para quem viu crescer o risco da Nova Matriz Econômica (Meu Deus!!!) voltar, parece o casamento dos sonhos.

Todos os indicadores apontam para um começo de relação típica das grandes paixões. A cada dia uma nova alegria. Sérgio Moro, água para o Nordeste, Banco Central independente. Ibovespa deixou o fim de outubro na história e já renovou a máxima histórica. Copom soltou comunicado mostrando que a assimetria de riscos mudou e deu a entender que o ambiente político reduziu as pressões e manteve a Selic em 6,5%, deixando implícito que dificilmente fará qualquer alteração ainda em 2018.

O caminho está sendo pavimentado para a chegada do novo governo nos braços do mercado. Os arroubos da oposição foram sucessivamente ofuscados pelo discurso prático, objetivo, simples e direto do presidente eleito. Eu me recuso a apoiar a alcunha de “Posto Ipiranga” atribuída a Paulo Guedes. Um economista com sua história, PhD em Chicago e profundamente defensor do encolhimento do Estado e solvência das contas públicas não merece ter sobre si um apelido com conotação, para dizer o mínimo, simplista. Vale ressaltar que uma parte não desprezível da minha experiência profissional foi em Chicago, cidade e escola que influenciaram muito minha vida e carreira. Evidentemente, aumenta minha afinidade com as visões do novo “superministro” da Economia.

Ao mesmo tempo, como nunca consegui cortar o cordão umbilical do Tio Sam, sou profundo defensor das instituições e das limitações impostas por uma democracia que respeita o contraditório. Muito bem! É aqui que mora o primeiro desafio do novo Presidente e sua equipe, na minha opinião. Nossas instituições serão postas à prova e a separação dos poderes testada o tempo todo durante o período de lua de mel do mercado com o Planalto. A transformação no legislativo, com índice de renovação histórico é a prova da falência do modelo oligárquico e coronelista que dominou nossa política por tantas décadas. Mas alto lá, nem tudo são flores. Ainda tem muita gente bastante complicada, para dizer o mínimo, sob a ótica jurídico/judicial e que pode usar o apoio às reformas fundamentais como moeda de troca. Com Moro no Ministério da Justiça, a tendência da cooptação deixar de ser ativo circulante é grande e a nova moeda no Congresso, ainda incerta e não sabida.

No Banco Central da política, a emissão de moeda circulante não é tão simples. A Escola de Chicago não ensina como lidar pelos corredores de um legislativo que não conhece, ou propositalmente ignora, a técnica como fator decisório fundamental. Some a isso a formação de uma oposição raivosa, nada propositiva e muito experiente em técnicas de guerrilha de retórica e legislativa. A chegada da rotina de embates, conflitos e desafios da vida real ao casamento entre o governo Bolsonaro e o mercado, na eterna administração entre expectativa e realidade pode impactar os prêmios de risco atribuídos e trazer a turbulência natural da arrefecimento da paixão.

Os índices de confiança serão fundamentais. A retomada dos investimentos, das contratações, do consumo, do crédito, da geração de renda, precisam acontecer simultaneamente para que os planos sejam sustentáveis e exequíveis. É muito prato para equilibrar. Muita gente boa e comprometida necessária para “mudar isso daí” efetivamente.

Por enquanto o mercado está na fase zen, entrando na sensação do bem e torcendo para evitar o mal!

“Meu mar e minha mãe

Meu medo e meu champanhe

Visão do espaço sideral

 

Onde o que eu sou se afoga

Meu fumo e minha ioga

Você é minha droga

Paixão e carnaval

 

Meu zen, meu bem, meu mal”

 

Vai Brasil!

 

Adeodato Volpi Netto