Muito além das vuvuzelas

Muito além das vuvuzelas

Tempos de Copa são divertidos e revigorantes para nós brasileiros que temos em nosso DNA o amor ao futebol, expressado por meio de seleções que marcaram a nossa trajetória com sagacidade e criatividade em campo. Isso tudo faz com que a maioria transborde de orgulho, vista a camisa do país e vibre com cada chute a gol.

No entanto, o nosso cotidiano, fora da Copa, não reflete tais sentimentos.

Somos um país jovem, com uma democracia quase infantil. Assim, ainda não somos capazes de compreender as verdadeiras razões e muitos menos os caminhos para acabar com as nossas inquietudes.

Até quando vamos nos valer de desculpas para justificar o que não segue bem há muito tempo? Colocar a culpa nos políticos – eleitos por nós – é a saída? Reclamamos tanto de corrupção, mas a nossa rotina está impregnada por ela. No entanto, por “conveniência”, fingimos que furar uma fila não merece crédito, já que, em Brasília, tudo é muito pior… Assim seguimos, transferindo a responsabilidade para o governo, pois olhar para o próprio umbigo, em muitos momentos, pode ser bem mais difícil (e doloroso).

Desta maneira, muitos de nós, brasileiros, escondem-se em nome de uma suposta “causa maior”, sob pretexto de “luta”, mas quando, na verdade, não é nada disso… Isso pôde ser visto por meio da possível prática de locaute por empresas de transporte durante a greve dos caminheiros. Quer modo pior das companhias impedirem seus empregados de trabalhar do que em razão de seus próprios interesses? Mesmo que não tenhamos a exata dimensão de quem fez o quê na mobilização, é inequívoca a percepção de que todos estavam envolvidos.

Em meio a tudo isso, uma onda de discursos populistas voltou à tona, o que não se via, de forma tão forte, desde o inesquecível vazamento da conversa entre Michel Temer e Joesley Batista que, também por uma ação oportunista, adiou a aprovação da Reforma da Previdência- que estava prestes a acontecer.

Com a greve dos caminhoneiros, o renascimento desta onda, resgata a ideia do Estado como arrimo da população. Já escrevemos sobre a paralisação, mas este tema se mantém atual, já que os seus resultados estão mais frescos do que nunca.

Neste cenário, está muito difícil encontrar razoabilidade, já que todos parecem ter uma verdade única que, infelizmente, não está em uníssono a um bem maior. Isso porque os rastros de prejuízos foram bilionários. A falsa dicotomia dos extremos.

Segundo pesquisas, as perdas giraram na ordem de R$ 75 bilhões. Só os supermercados contabilizaram R$ 7 bilhões em prejuízos; e os distribuidores de combustível registraram R$ 5 bilhões. Isso sem falar na quantidade absurda de alimento jogada no lixo e nos remédios que não chegaram aos hospitais…

E a economia?

A nossa economia levará um tempo para recuperar tudo isso e o pior é que tudo pode continuar.  Acabamos de publicar, em nosso relatório FOCUS, que as projeções para o IPCA de 2018 passaram de 3,65% para 3,82%, como resposta à inflação acima da esperada para o mês de maio. As previsões de crescimento do PIB para este ano também tiveram uma queda abrupta, com expectativa reajustada de 2,18% para 1,94%.

Assim, neste momento de crise, por este e outros motivos, o dólar bateu quase os R$ 4 reais e voltou o discurso culpa lá dá cá.  Na realidade, o buraco é bem mais embaixo.

Em “O Mito da Caverna”, Platão tenta explicar o verdadeiro mundo real, colocando a razão em primeiro plano. Assim, é válido que façamos uma reflexão parecida e nos movimentemos contra o comodismo de nossas cavernas, pois nossas figuras projetadas nas paredes não mudarão mais. A força está, justamente, em conseguirmos escapar delas para vislumbrarmos um cenário mais verdadeiro do lado de fora.

2018 não tem só Copa, é ano de eleições. Muito cuidado com os semideuses e suas promessas mirabolantes. Não existe solução mágica e nem rápida. O caminho para a recuperação de nossa economia exige união e não é possível desenhar esta trajetória de forma isolada.

Cabe a cada um de nós fazer a nossa parte, não defendendo movimentos ou concentrações que só protejam interesses específicos. A liberdade que tolhe o direito do outro dentro de uma sociedade não é liberdade.

O momento é de Copa, de descontração e de alegria. No entanto, atenção é fundamental, pois as eleições também estão aí. Olho vivo para os extremismos, tanto em relação à vida, como para os investimentos. O pensamento não deve ser voltado só para as vuvuzelas, mas para a consciência e a responsabilidade. Muito está por vir.