Não ouço, não falo, não vejo

O Banco Central mandou avisar: a inflação de 2016 vai ultrapassar o teto da meta, mais uma vez – deve ficar entre 6,6% e 6,9%.

O Banco Central mandou avisar: a inflação de 2016 vai ultrapassar o teto da meta, mais uma vez – deve ficar entre 6,6% e 6,9%. Ele falou mais alto para alardear sobre o tombo da economia: o PIB vai cair 3,5% este ano. Só faltou gritar na hora de dar “nomes aos bois” que derrubaram a economia brasileira, comprometendo também sua recuperação e seu futuro. Para arrematar esta mudança de expectativas, o BC completou o recado no Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta quinta-feira (31): a taxa de juros não sai do lugar, ou melhor, não desce, como esperava muita gente do mercado.

A manifestação do BC é reveladora e extremamente preocupante porque desenha um horizonte de estabilidade muito longínquo e sugere que a trajetória será sofrida, principalmente para a população mais desfavorecida do país. E lá do lado dos ministérios, do palácio do Planalto, do Congresso Nacional, neca de pitibiriba. Ninguém disse nem cobras nem lagartos da ousadia do BC em prever dias tão sombrios à frente. Quem vai se preocupar com amenidades como inflação alta e recessão profunda, quando há uma “liquidação” de cargos e poder em Brasília? O governo, especialmente a presidente Dilma Rousseff, não faz outra coisa senão caçar votos aliados contra o impeachment, nem que isto custe alguns anos de depressão econômica.

Mesmo com um prognóstico pior para a inflação deste ano, a lista de probabilidades positivas que podem tirar fôlego dos preços não pode ser desprezada. O desemprego, a corrosão na renda dos trabalhadores, a forte queda nos preços administrados e, principalmente, o câmbio, se seguirem na toada atual, o BC pode se surpreender com os efeitos sobre o IPCA. No mercado financeiro, já tem gente colocando fichinhas no cumprimento da meta em 2016 e na convergência do indicador no próximo ano. Ainda é um posicionamento tímido, até porque, o cenário político está para lá de assustador.

No seu pragmatismo corrente, o mercado financeiro continua jogando a moeda americana para baixo – o dólar chegou a bater em R$ 3,53 durante o dia e fechou abaixo de R$ 3,60. Na bolsa de valores, deu preguiça ficar positivo e o Ibovespa fechou em queda de 2,33%. Neste último dia de março, deu para realizar algum lucro com o ganho extraordinário do mês – alta de 16,9%, maior ganho mensal desde outubro de 2002, quando o país fervia com a eleição aproximada de Lula para o primeiro mandato do petista à presidência.

Os dias prometem muita emoção, mas nada de abraços coletivos na volatilidade. Cada macaco na sua mesa de operação. Pelo menos na vida real, estão todos de olhos, ouvidos e boca aberta com tamanho atrevimento da classe política do país.