O Value Investing funciona no Brasil!

Value Investing funciona no Brasil.

“Se os mercados fossem eficientes, eu estaria na rua pedindo esmola.” – Warren Buffett

Nas últimas semanas, após mais uma das muitas crises políticas que acompanhamos aqui no Brasil, ganhou peso o argumento de que o Value Investing, como é praticado nos países desenvolvidos não funciona na nossa bagunça verde e amarela. Segundo essa corrente, da qual inclusive alguns profissionais fazem parte, a escola clássica de Buffett, junto com os pilares que o sustentam como foco em análise de fundamentos das companhias individualmente e visão de longo prazo, não funcionaria por aqui, dada as eternas instabilidades políticas e econômicas que permeiam o nosso País.

A pergunta que paira no ar então é: será que os grandes investidores como Warren Buffett e Charlie Munger teriam o mesmo sucesso se investissem na Bolsa brasileira?

O que os investidores descrentes do Value investing não percebem é que ele não requer mercados estáveis – pelo contrário. O próprio EUA, por exemplo, apesar dos últimos anos em forte tendência positiva e instituições muito mais sólidas do que as nossas, também tem sim seus momentos de volatilidade em ações. Vale lembrar da crise dos Subprimes ou ainda mais recentemente da eleição do Trump. O próprio Munger disse certa vez que, de sua forma pouco ortodoxa, que quem não estiver disposto a encarar quedas no valor nominal de sua carteira na casa dos 50%, não deveria cogitar investir em ações.

Para não ficarmos só na teoria, basta vermos as estatísticas. Desde 1990 até o fim de 2016, a Bolsa de Nova Iorque apresentou quedas superiores a 5% três vezes ao ano em média. E a cada três anos e meio, quedas superiores a 20%.

Alguns podem até argumentar que de fato aqui a instabilidade é ainda maior. Inegavelmente, ela é. Temos nos especializado em guinadas políticas/policiais em nossa House of Cards da vida real. Mas o fato central é que a instabilidade é condição inerente às economias e aos mercados financeiros – e se faz presente tanto em países desenvolvidos como emergentes – sendo ela, a volatilidade, que permite se tornar sócio em negócios sólidos, lucrativos e bem administrados por menos do que eles valem.

Porém, como já nos ensinou Buffett, a alavanca que movimenta o investimento em valor, seja no Brasil, nos EUA, no Azerbaijão ou na nova Zelândia é que os mercados não são estritamente racionais. Principalmente nos momentos de extremos eles são ineficientes em precificar corretamente algumas empresas, e é justamente aí que um pequeno grupo de investidores, contrário aos movimentos de manada aproveitam essas oportunidades.

A aplicação disciplinada da escola de investimento em valor, com visão diligente de longo prazo, será capaz de produzir resultados consistentes em qualquer mercado capitalista suficientemente organizado, incluindo o nosso. Portanto, a realidade é que muitas vezes o argumento contra o value investing no Brasil é usado por quem não entende essa sutileza, ou refletem a falta de disciplina na sua aplicação.

Pode ser mais difícil no aspecto comportamental, pela nossa proficiência em produzir crises, mas a História nos mostra que se associar a projetos resilientes, com boa rentabilidade e barreiras à entrada de novos competidores traz resultados muito positivos na Bolsa tupiniquim.

O contexto econômico e político pode e deve ser levado em consideração, servindo como o pano de fundo que permeia as análises das empresas. Como nosso horizonte é mais amplo do que a virada do mês, focamos mais nas tendências estruturais da economia do que em dados de curto prazo como o tamanho no próximo de corte da Selic. Entendemos que as consequências econômicas plausíveis resultantes das possíveis soluções políticas da crise atual não alteram de forma material o valor de nossas empresas recomendadas, por exemplo, na Carteira Eleven. É o momento da paciência para esperar a melhor oportunidade de investir com disciplina e serenidade.

Portanto as turbulências políticas e econômicas não só não provam de que o Value Investing buffettiano não serve para o Brasil, como sugerem que temos mais fontes de oportunidades nas irracionalidades, para quem realmente aplica o método por períodos maiores. A melhor forma de passar por crises é investido em empresas bem geridas, em posição de liderança nos seus mercados e que, preferencialmente, atuem em mercados com oportunidades de crescimento e investimento.

Se você realmente procura pela galinha dos ovos de ouro, cuidado com as distrações causadas pelos galos gritões.

Ótimo domingo!

André Prates

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