Direto de Omaha: a ignorância é uma dádiva!

Hoje uma das lições mais importantes repetidas por Warren Buffett e Charlie Munger. Sabe qual é? Eu não sei!

“A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda.” – Voltaire

No último sábado a pacata cidade de Omaha – Nebraska recebeu cinquenta mil turistas para um evento. Não era um show de rock ou uma pré-estreia de algum filme hollywoodiano. As estrelas desse inusitado evento eram dois senhores na casa dos noventa anos. Estamos falando aqui da reunião anual de acionistas da Berkshire Hathaway, empresa comandada há mais de cinquenta anos por Warren Buffett e Charlie Munger.

Chama-se de reunião por motivos de formalismo. O que acontece ali, na presença de seguidores de quase todos os cantos do mundo é, na verdade, uma verdadeira aula de sabedoria, humildade, filosofia, e, claro, de investimento. Em um determinado momento da conversa, que de ponta a ponta dura aproximadamente seis horas, houve o seguinte diálogo:

Warren Buffett: “(…) nós éramos jovens e ignorantes.”

Charlie Munger: “agora somos velhos e continuamos ignorantes.”

A passagem acima, aparentemente despretensiosa, guarda um dos conceitos mais decisivos no mundo dos investimentos, e na vida. Aplicá-lo pode evitar alguns dos maiores erros que os investidores cometem e que raramente é aplicado por qualquer pessoa, mesmo os profissionais mais experientes. E no entanto, podemos resumi-lo com três simples palavras: “Eu não sei”. Ao lado da margem de segurança, essas podem muito bem ser as palavras mais importantes no mundo dos investimentos.

Ao assistir aleatoriamente um dos programas de TV sobre economia e finanças, o investidor com bom senso pode perceber um certo padrão se repetir cotidianamente. Indivíduos definidos por algum cargo de nome pomposo dão entrevistas durante o pregão, dando previsões sobre como os mercados e as ações irão performar durante a semana, o mês ou até o final do ano. Eles demonstram confiança, falam com a voz bem empostada e provavelmente estão errados, principalmente aqueles que ignoram a complexidade da dinâmica do mercado. O estranho é que, embora esses tipos de previsões tenham se provado repetidas vezes erradas, a grande maioria ignora esse fato quando se trata do mercado de ações.

Seu histórico de acerto é pior do que um relatório meteorológico, e pelas mesmas razões – há muitas variáveis, e as relações entre eles podem mudar de repente e sem aviso, comprometendo toda essa modelagem cuidadosa. Apesar de bem documentada, a imprecisão das estimativas de lucros direciona bilhões de dólares em investimentos com base nessas previsões. Durante a temporada de divulgações, potencializa-se a janela de apostas, como se estivessem em uma pista, as pessoas arriscam seu dinheiro prevendo se essas empresas exceder ou frustrar estimativas. É o que chamamos de “trade de evento” e não tem absolutamente nenhuma semelhança com o racional de investimento de longo prazo.

Quando eu conheço pessoas e eles descobrem que eu trabalho em torno dos mercados, as duas primeiras perguntas são: o que vai acontecer com o mercado hoje e o que o mercado vai fazer. Minha resposta é sempre a mesma: “Eu não sei.” Exemplos não faltam:

·       Onde estará o Ibovespa ao final do ano? Eu não sei.

·       Temer passará todas as reformas fiscais até o fim de seu mandato? Eu não sei.

·       Haverá a tal Super-safra no Brasil? Eu não sei.

·       A quanto estará cotado o barril de petróleo daqui a um ano? Eu não sei.

·       Banco Central irá cortar 100 ou 125 Bps na próxima reunião do Copom? Eu não sei.

·       Os EUA irão começar alguma guerra no Oriente Médio este ano? Eu não sei.

·       Quem ganhará a eleição em 2018 e quais seus impactos na economia? Eu não sei.

Não estou argumentando que os investidores não possam ter opiniões e pensamentos sobre as empresas, os mercados, suas variáveis, economia ou mesmo sobre a política em suas diversas esferas. Muito pelo contrário. Estudar e traçar os possíveis cenários, bem como suas consequências é fundamental. O problema começa quando o investidor, cruza a linha (tênue) que separa a autoconfiança da soberba. Começa a acreditar que ele, ou terceiros, podem definir de antemão o futuro preciso de variáveis tão complexas e caóticas como as que envolvem o mercado de ações.

O que realmente faz diferença no desempenho dos seus investimentos é construir um sólido racional, identificando a tendência para a ação da companhia em seu melhor e pior cenário. O meio deve ser obrigatoriamente a análise profunda sobre as vantagens competitivas e os riscos associados à operação, além do mercado onde uma empresa está inserida. No fim das contas, o que nós procuramos são justamente as ações com retornos potenciais assimétricos. “Cara eu ganho muito, coroa eu perco pouco.”

Naturalmente, para esse exercícios de cenários de ganhos e perdas existem previsões implícitas. O ponto é como e onde fazê-las. Note, não estamos aqui falando sobre para onde irá todo o mercado acionário, muito menos determinando uma data específica. O jeito certo de fazer as previsões, segundo nossa visão, é procurar os diversos cenários possíveis, e selecionar as empresas que entregam as assimetrias mais favoráveis, diante de um futuro que não conhecemos. Não há certezas. Ter ciência disso, é tão raro quanto importante.

Enquanto a maioria faz apostas individualizadas, sem entender a dinâmica de um portfólio balanceado, sob a crença de que o futuro na bolsa pode ser mapeado, os investidores que sobrevivem ao longo das décadas diversificam com a compreensão de que a previsão determinística não é uma opção sob a mesa.

Dizer “Eu não sei”, reconhecendo sua ignorância frente à maioria dos eventos que estão pipocando na televisão ou em sites, e focar nas poucas variáveis chaves que realmente geram valor no longo prazo, pode salvá-lo de cometer grandes erros e melhorar substancialmente seus retornos ao longo do tempo.