Otimismo pode queimar em fogo alto

Num editorial dirigido ao Brasil, a “The Economist” pondera o custo das opções mais dramáticas para uma possível ruptura do governo do PT.

Se daqui do Brasil já está difícil entender o que se passa, imagine quem está lá fora com um mínimo interesse no que acontece nos trópicos! Se a pessoa resolve comprar uma revista de credibilidade, vai dar de cara com um pedido de renúncia da presidente Dilma Rousseff. Num editorial dirigido ao Brasil, a “The Economist” pondera o custo das opções mais dramáticas para uma possível ruptura do governo do PT e é assertiva em dizer que Dilma daria ao país a chance de um novo começo se saísse por sua própria decisão.

Para quem lê os jornais diários, já viu no The Guardian uma recomendação parecida: convoque novas eleições ou renuncie, pelo bem do Brasil. Outros jornais, de outros países – principalmente os mais ricos – vêm dizendo a mesma coisa, talvez não com a ênfase dos britânicos, mas com alertas rigorosos sobre os estragos que o alongamento da crise atual pode causar à economia brasileira.

A resposta mais consistente ao apelo da imprensa internacional foi descoberta por “O Globo” e não veio do Palácio do Planalto ou de um comunicado público. Quem trabalha nas embaixadas e nas representações brasileiras no exterior recebeu por e-mail uma mensagem mais clara, impossível: “o Brasil está correndo risco de um golpe político”, diz o documento distribuído de dentro do Palácio do Itamaraty, ou ministério das Relações Exteriores. O governo logo desmentiu, explicou que a ação foi por conta e risco de apenas um diplomata, mas agora o “enviar” já foi clicado. E ninguém negou o “mérito”, apenas a “viagem” da mensagem.

Na sopa de letrinhas que ferve com as análises sobre a situação esdrúxula que enfrentam os brasileiros, têm ingredientes essenciais queimando no fundo da panela: o emprego, a produção, o investimento, o crédito e a confiança no futuro. Quem já está passando do ponto e mostrando que não vai aguentar a fervura por muito tempo é o otimismo. A resiliência do Partido dos Trabalhadores é imprevisível – taí o comunicado do Itamaraty não nos deixando mentir. Como dissemos durante a recente euforia, aquela fartura de bolsa em alta e dólar em queda estava mais para festa do que para rotina. Mas a cada vez que o otimismo se desfaz na panela, fica mais difícil evitar que ele se junte de vez com as outras especiarias no fundo do caldeirão.