Pitfall! A armadilha

O Brasil não é um jogo de Pitfall, mas ainda precisamos passar de fase e escapar de armadilha, enquanto temos vidas em estoque!

por Adeodato Volpi Netto, Estrategista-Chefe

Hoje nosso sócio líder do time de economia, Rafael Bevilacqua disse no encerramento do pregão: “é, tinha um 2016 no meio de 2017”!

Vou mais longe. Eu hoje passei o dia lembrando de um jogo que marcou minha infância. Pitfall! O controle do meu Atari chegava a ferver de tanto que apanhava quando sucessivas vezes eu caía nas armadilhas, fossem elas buracos na selva, ou tocas de crocodilos. Cipós eram obrigatoriamente usados, e a oscilação não conseguia garantir que chegaria ao outro lado salvo.

O artifício do balanço, ou swing, era fundamental para conseguir sobrepor as barreiras e seguir em frente. O Brasil resultante dos acontecimentos no mês de maio anda lembrando aquela selva! Tem jacaré, buraco e armadilha por todo lado. A montagem da melhor, mais completa e com maior autonomia, equipe econômica parecia que faria o mantra de James Carville, cravado na história política na eleição norte-americana em que Clinton venceu Bush (pai), “it’s the economy, stupid“, havia chegado aqui para valer.

Muito afirmam que o Joesley chegou para bagunçar tudo. Eu discordo. Ele fazia o papel dele. O mesmo que repetiu durante a última década. Criando o gigante mundial de alimentos e utilizando as técnicas e ferramentas hoje de domínio público. Para mim a conta nunca fechou. Não à toa, repeti incansavelmente desde a chegada da Eleven ao mercado, que jamais recomendaria compra de JBSS3, não importando quanto subisse (vide os +9% de hoje). A fórmula contrariava tudo o que acredito, muito mais quando devo ser responsável institucionalmente e guiar um time brilhante de analistas, na compreensão do senso de responsabilidade com o dinheiro daqueles que confiam na Eleven. Para mim, a surpresa foi o Presidente da República. A maneira como rasgou a instituição “Presidência” naquele encontro. Quem deveria ser diligente com todos nós era Michel Temer. Batista não tinha esta responsabilidade. Na verdade provou que não tinha nenhuma. Hoje foi coroado com um acordo de leniência que merece agradecimentos eternos de todas as gerações vindouras de sua família.

Ver o Ibovespa derreter 2% nesta quarta, fechando em 62.711 pontos, em um dia no qual o COPOM, comitê de política monetária do Banco Central certamente anunciaria mais um corte na taxa básica de juros, mostra o quanto a incerteza pode pesar sobre os mercados. A decisão do time de Ilan Goldfajn, de reduzir a Selic em 1%, descendo para 10,25% ao ano, foi, em nossa leitura, responsável e correta. O comunicado ressalta o controle inflacionário, missão historicamente muito complexa e que havia sido cumprida com louvor, mas aponta repetidamente a palavra “incerteza” como fundamental para a percepção de redução na velocidade da redução dos juros a partir da próxima reunião. Mercado já precificava e já conhecia os principais fatores influentes. Amanhã veremos um pouco de quanto havia de esperança na surpresa sobre o consenso.

Basicamente todos os setores da Bolsa tiveram um dia negativo, à exceção de telefonia, com TIMP3 registrando alta de 1,02% e VIVT4 +0,56%. A queda de OIBR4, de quase 2% não pode ser analisada de forma linear com seus pares em função da situação da companhia, em recuperação judicial e o consequente comportamento peculiar de seus papéis. Outro setor que mostrou que pode estar “de volta ao jogo”, foi o de saneamento. SAPR4 +1,55%, com mais de R$ 28 milhões em volume negociado, CSMG3 + 0,23% e SBSP3 com leve queda, que foi consequência do leilão de fechamento, pois operou grande parte do dia em terreno positivo. Dentre os mais machucados, o setor de educação teve papel importante, com ANIM3, ESTC3 e KROT3 em terreno negativo, após as notícias, mesmo que ainda nada claras, sobre potenciais modificações no FIES. Curiosamente, Anima Educação, que redesenhou seu modelo e reduziu com sucesso a relevância do financiamento público, foi a mais machucada. Mesmo assim, suas ações fecham o mês com valorização de 20%. E ainda tem muito mais por vir!

Os R$ 9 bilhões negociados na Bolsa hoje, mostram que o investidor estrangeiro continua por aqui, mas levantou uma dúvida a ser esclarecida nas próximas semanas. Os dólares que vimos comprando com força recentemente ativos de fundamento, podem ter alcançado seu objetivo, e aí passaríamos a lidar com o fluxo especulativo, que tende a deixar o mercado mais volátil. Definitivamente no mês de maio, o fundamento venceu o fluxo. Em uma demonstração importante de seu caráter “anti-frágil”, a Carteira Eleven encerrou o mês mais difícil do ano na Bolsa em alta de 0,12%, contra queda de 4,12% do Ibovespa. Proteger em momentos de alta pressão e performance em tempos de colheita. Nosso melhor juízo de equilíbrio entre risco e retorno.

Amanhã antes da abertura do mercado tem divulgação do PIB e boas novas podem trazer mais um pouco de oxigênio para o mercado. Juros futuros e dólar seguiram comportados, o primeiro por tendência e o segundo, meio na marra, mas de forma segura. Infelizmente ainda vamos depender mais de Brasilia do que gostaríamos nas próximas semanas, mas pensando com calma e analisando o terreno, tem muito cipó para passar pelos jacarés e muita ferramenta para não cair em armadilhas.

O Brasil não é um jogo de Pitfall, mas ainda precisamos passar de fase, enquanto temos vidas em estoque! Até amanhã!