Temer e investimentos: O preço do presente para garantir o valor do futuro

Temer e investimentos: O preço do presente para garantir o valor do futuro

A conotação do título deste artigo é propositadamente óbvia. Em momentos de crise, porém, até o óbvio é visto com olhos duvidosos. Escrevo para lembrar que a racionalidade não mudou, assim como, à revelia de Temer ou não, as necessidades do país. Observemos as de longo prazo.

A estabilidade fiscal é condição necessária, mas não suficiente, para garantir níveis sustentáveis de desenvolvimento em horizontes mais distantes. Uma melhor percepção de risco fiscal somada a uma alocação mais eficiente dos recursos públicos assegura um solo fértil para a retomada no crescimento. O embrião deste processo, porém, não é conhecido pelo brasileiro – a produtividade.

Os consecutivos déficits agravam a crescente trajetória da dívida do setor público. Mais dívidas representam maior risco, o que se traduz em uma tendência de depreciação cambial. Em segundo lugar, se mais da metade do orçamento é gasto com as (crescentes) despesas previdenciárias, o país passa a mensagem de que prioriza o bem-estar de uma geração passada à educação da geração futura.

Em ambos os casos, qualquer respiro de produtividade é sufocado, ou por imposições de um fracassado desenvolvimentismo, ou pela falta de recursos e dedicação para educar uma nova geração.

Infelizmente, nada disso é novidade. Não é por acaso que a produtividade do brasileiro está estagnada há mais de 30 anos.

O que o governo Temer vinha fazendo com relativo sucesso era garantir que o ambiente econômico no Brasil se tornasse fértil para esta evolução, tanto no âmbito macroeconômico quanto na esfera microeconômica. Até que o curto prazo bateu na porta, e com força.

Desde a fatídica quarta feira (18/05), a forte dissolução da base governista, as articulações de sucessão lideradas pelo PSDB, a substituição de ministros e o pedido de demissão da presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos, são claras evidências de desmoronamento do governo Temer. Sua queda deveria apenas uma questão de tempo, se a nossa típica imprevisibilidade não falasse mais alto.

Por ora, o mercado demonstra um meio termo entre recuperação e apreensão. Além disso, o Banco Central demonstra cautela, praticamente descartando um corte de 1,25 p.p na taxa de juros. Mas o prazo desta indecisão vai até o dia 8 de junho, com o fim julgamento no TSE da chapa Dilma-Temer. Se a incerteza se mantiver ao longo do mês, esta paciência poderá virar inquietação diante da indefinição política. No pior cenário, a insegurança institucional prevalece por mais tempo e a deterioração da governabilidade poderá afundar o país em mais uma crise de confiança.

Em 2015 não foi diferente. No momento em que a falta de condições do Planalto para coordenar o país foi escancarada, os indicadores de risco dispararam, os ratings foram rebaixados e os investimentos despencaram. Lembremos do resultado: dois anos de recessão com inflação.

Para que esse indesejável cenário não se repita, o embate político deve chegar a um fim. E rápido. Só assim poderemos voltar a debater os verdadeiros desafios do país para o longo prazo. Portanto, com Temer ou sem Temer, o Brasil precisa de ação. O que vivenciamos nas últimas semanas é o oposto disso.

O curto prazo está custando caro demais.

por Thomaz Sarquis – time de Economia da Eleven Financial