Quem desdenha, quer comprar

“Foi uma produção”, disse o ministro Jacques Wagner, da Casa Civil, sobre a maior manifestação popular da história do Brasil.

“Foi uma produção”, disse o ministro Jacques Wagner, da Casa Civil, sobre a maior manifestação popular da história do Brasil. “Não me venha falar em espontaneidade”, emendou Wagner em sua leitura do encontro “produzido” de quase 7 milhões de pessoas em todo país para protestar contra o governo de Dilma Rousseff. Nem a presidente, chefe do ministro mais importante em Brasília, foi tão deselegante na interpretação dos protestos deste 13/03. A postura de Jacques Wagner é a prova viva do ditado popular “quem desdenha, quer comprar”.

As expectativas para as passeatas deste domingo eram muitas, mas nem o mais otimista conseguiu prever a quantidade de gente nas ruas. Mesmo pela contagem da Policia Militar – 3,3 milhões de brasileiros – o recado foi dado em alto e bom som. E Brasília foi obrigada a ouvir e sabe que a pressão só vai crescer. O sucesso foi tanto que corriam pelas ruas as previsões para uma segunda-feira com dólar em queda e bolsa de valores em alta. Só que não. O mercado financeiro já tinha dado preço ao encontro do dia 13/03. A volatilidade vai comandar os próximos dias, até que fiquem mais claros o “como” e o “quando” as mudanças podem ocorrer.

A juíza Maria Priscilla Veiga, do Tribunal de Justiça de São Paulo, responsável pelo processo que avalia o pedido de prisão do o ex-presidente Lula, resolveu passar a bola para o colega de Curitiba, o juiz Sérgio Moro. Para tirar Lula da frente de Moro, o Partido dos Trabalhadores ainda não desistiu de transformá-lo em ministro, o que daria a ele o foro privilegiado do STF. No carnaval de decisões que precisam ser tomadas pela cúpula do PT e pela própria presidente Dilma está todo mundo bêbado no salão. E é este ritmo que gera mais dúvida do que alívio no mercado financeiro.

Passada a euforia, a vida retomou seu rumo e a trajetória não tem nada de promissora, pelo menos não no curto prazo. Os desafios para a economia só fazem crescer num espaço cada vez menor reservado para a tomada de decisões. E os investidores, ou gestores do dinheiro dos investidores, têm pressa e senso de realismo. Por isso, o dólar fechou em alta de 1,7%, acima de R$ 3,65. Na BOVESPA, as ações da Petrobras caíram mais de 8,5%, levando o índice da bolsa e outros papéis para baixo. Mesmo enxergando uma ruptura do governo Dilma, o mercado esfrega os olhos e refaz o foco para não cair na ilusão do deserto.