Só a economia não tira férias

Temer ainda é interino e ainda convive com risco de governabilidade com a Lava Jato bufando em seu cangote. Confira no post de hoje.

O presidente interino Michel Temer conta com a aprovação de 13% da população brasileira, segundo a pesquisa feita pelo Ibope a pedido da CNI. Na outra ponta, 39% o consideram ruim ou péssimo. Como tudo na vida é uma questão de referência, pelo último levantamento, a presidente afastada Dilma Rousseff tinha 10% de boa avaliação e 69% de reprovação total. Mesmo com esta vantagem comparativa, Temer ainda é interino e ainda convive com risco de governabilidade com a Lava Jato bufando em seu cangote. E não adianta correr ou se esconder atrás da árvore – o urso é bem mais rápido e inteligente.

Quem tem sustentado os bons afazeres do governo Temer é a equipe econômica e suas ideias para os ajustes necessários – mesmo que estejam mais no campo das ideias do que das ações (sem trocadilho). Nesta sexta-feira, quando o Plano Real completa 22 anos, o novo presidente do Banco Central deu sua primeira entrevista exclusiva a um jornal e o escolhido foi o Valor Pro, serviço de tempo real do jornal Valor Econômico. Ilan Goldfajn surpreendeu pela quantidade de informação que transmitiu na conversa – mais do que havia dito nos discursos recentes ou na coletiva de imprensa que a qual compareceu no início da semana.

Ilan conseguiu mexer com o mercado – coisa que presidentes de BC só devem fazer quando sabem exatamente o que querem e para que lado devem encaminhar os investidores. Ele falou sobre dólar, juros e crescimento econômico e em todos os tópicos sempre aplicou uma dose homeopática de realismo. Desde que Ilan assumiu, o mercado vem testando sua tolerância para o nível de câmbio para tentar adivinhar qual seria o piso do novo comandante do BC. O de Alexandre Tombini (o ex) era R$ 3,50. O caminhão de mais de US$ 100 bilhões que ele jogou na praça com os derivativos não foi para “conter alta volatilidade dos mercados” – justificativa dos banqueiros centrais para fazer intervenções sem comprometer o regime de cambio flutuante.

Com a chegada de Ilan Goldfajn, a turma não perdeu tempo. Quis logo saber quanto o economista estaria disposto a gastar para evitar uma queda mais forte da moeda americana. Até esta sexta-feira (01) eles vinham ganhando por WO. Até que o BC ofereceu um lote de 10 mil contratos de swap reverso no valor de US$ 500 milhões – um aperitivo, só para mostrar que tinha alguém sim do outro lado da quadra. Mas um jogador diferente, mais classudo, tipo um Roger Federer que sai de blaser das quadras depois de 5 horas de uma partida de final de Grand Slam. Não mais aquele esbaforido que quer se manter na marra no jogo mesmo sem fôlego, técnica ou torcida.

A moeda americana reagiu sem exageros, indicando que o mercado passa a contar com intervenções menos agressivas e com objetivo de “desmontar” o estoque de operações de swap cambial que está agora em US$ 60 bilhões – e não de forçar a formação de um preço ideal. O que ficou claro na entrevista de Ilan Goldfajn ao Valor Pro é que ele quer entregar o IPCA na meta de 4,5% no ano que vem. E deixar o real se valorizar agora é a oportunidade de realizar seu objetivo sem impor mais custos à economia. Com o câmbio em patamar mais benigno para a inflação, e os demais fundamentos da economia frágeis (crescimento, desemprego..), apesar de um discurso mais duro, acreditamos que Ilan verá os espaços para o ciclo de corte de juros no segundo semestre. Afinal, ele optou por manter a meta em 4,5%, sabendo que não pode punir mais a atividade no país, pois, crescimento gera emprego e emprego gera aceitação ao interino Michel Temer.

O movimento da moeda americana nesta semana já deve se refletir nas previsões coletadas pelo BC para o relatório Focus. Se o ano terminar com dólar mais perto de R$ 3 do que de R$ 3,50, o IPCA desinfla mais rápido e mais cedo. Mesmo que o futuro ainda dependa de fatos imponderáveis, parece que Ilan Goldfajn está convicto de que pode fazer uma sintonia afinada e eficaz na relação com o mercado. Se tiver mesmo esta sensibilidade e mão leve para não ceder aos sustos, sua gestão pode gerar uma saudável mudança nas expectativas.

Como temos dito e defendido há meses, a trajetória de recuperação da economia será longa e pode ter momentos mais perversos e custosos. O que não pode acontecer é uma reviravolta nos rumos – aí sim seria dramático. A Eleven Financial também não acredita nos dias de muita euforia como sinais de que “agora vai”. Mas todo mundo merece uma pausa. O mês de julho começa e muita gente ainda está apavorada com a turbulência dos primeiros 6 meses, não é o caso do assinante Carteira Eleven, que teve muito a comemorar até agora!