Sunday Prates: Armadilha de Valor

Comprar ativos simplesmente porque eles estão “baratos” pode ser um erro muito mais grave. Conheça o que chamamos de armadilha de valor.

Na semana passada falamos sobre a importância do preço de uma ação para diferenciarmos boas empresas, com uma boa gestão, de bons investimentos. Investir bem não é sobre comprar coisas boas, mas sobre comprar bem as coisas, diria nosso amigo Howard Marks. Pois bem, por outro lado, um erro muito comum na Bolsa, independente do grau de senioridade do investidor, está na outra ponta. Comprar ativos por serem baratos pode ser um erro.

Comprar ativos simplesmente porque eles estão “baratos” pode ser um erro muito mais grave. A chamada armadilha de valor acontece quando determinada ação parece atraente ao investidor com base em uma combinação de múltiplos como o P/L (preço sobre lucro), P/VPA (preço sobre patrimônio líquido) ou mesmo sobre sua posição de caixa. A cereja (podre) do bolo em casos como este é comparar o preço atual com o histórico da ação.

A realidade é que muitas empresas estão baratas por uma boa razão. É extremamente raro encontrar uma empresa financeiramente sólida, com um forte crescimento de suas receitas e lucros, e com um modelo de negócios sustentável, numa situação dessas. É crucial, portanto, ter uma boa dose de ceticismo sobre ações baratas para verificar exatamente qual a razão para esse suposto desconto dado pelo Sr. Mercado.

Neste sentido, existem potencialmente duas categorias de problemas que uma empresa pode enfrentar. A primeira é temporária e pode incluir a perda de um grande cliente, uma queda de lucro circunstancial ou algum outro fator corrigível. Essas são as empresas que os investidores de valor procuram, pois é bastante improvável que esse valuation descontado dure por muito tempo. Um novo management, a conquista de novos clientes ou mesmo uma retomada na indústria ou nas perspectivas macroeconômicas podem atuar como gatilho para que o preço daquela ação volte a uma posição próxima ao seu real valor.

Já a segunda categoria é muito mais dura e, em alguns casos, permanente. Isso pode incluir produtos obsoletos devido a mudanças tecnológicas, danos à marca ou graves desafios financeiros, como a dívida alta ou um baixo retorno sobre o capital investido. Em tal cenário, será quase impossível para um novo time de administradores corrigir esses problemas e transformar o desempenho da empresa. É mais provável que a ação desta empresa, mesmo negociando a múltiplos baixos, continue a trajetória de queda, pois ela está destruindo valor no longo prazo. Escolher um destes papéis expõe um dos desafios mais sérios para qualquer investidor: entender a linha que separa a convicção da teimosia. 

Uma ação pode parecer barata quando comparada a seus ganhos passados. Mas o real valor dessa empresa vem do fluxo de caixa que ela irá gerar de suas operações daqui para frente e no crescimento desses ganhos. O que uma empresa gerou no passado pouco diz sobre seu valor.

Portanto, embora a compra de ações baratas seja bastante rentável em alguns casos, ela também pode revelar-se altamente arriscada. Um dos objetivos de cada investidor de valor é evitar estas armadilhas, que lá fora são chamadas de “value traps“. Equipe de gestão de uma empresa, situação financeira e previsões também devem ser levados em conta na decisão de compra. Como Warren Buffett disse, é melhor comprar uma ótima empresa a um preço razoável do que uma empresa razoável a um ótimo preço.

Quando nosso time diz a você, que a melhor escolha é VENDER uma determinada ação, há muito mais nesta recomendação do que a matemática. E jamais vai significar que aquela empresa não tem NADA de bom ou admirável, mas certamente que a balança entre risco e potencial de retorno está nitidamente desequilibrada. Em cada uma destas escolhas, ao invés de sentenciar que não “gostamos” disso ou daquilo, tenham a convicção que nosso time apontou aos nossos clientes, com a transparência e respeito que nos norteia, que há outras alternativas substancialmente melhores para seu dinheiro.

“As quatros palavras mais perigosas em investimentos são: desta vez será diferente.” John Templeton