Sunday Prates: De Warren Buffett a Tio Patinhas: os dois lados da moeda (de ouro)

A volatilidade mede o grau em que o preço da ação variou, para cima e para baixo ao longo de um período arbitrariamente definido.

Ultimamente alguns clientes da Eleven têm perguntado sobre o investimento em ouro. No Sunday de hoje vamos iniciar uma discussão sem a pretensão de apresentar uma tese inflexível e completa, mas levantar a bola sobre a utilidade de metais preciosos dentro de uma carteira de investimento.

A reconhecida resistência ao tempo confere ao ouro o status de um ótima forma de reserva valor, e, não distante, é associado à riqueza. Há, portanto, uma aceitação instituída de que seu valor intrínseco não perderá poder de compra ao longo das próximas décadas, por pior que seja o cenário futuro. Não à toa, a personagem do Tio Patinhas, bilionário dos quadrinhos da Disney, gosta tanto de ter sua fortuna em moedas de ouro.

Por outro lado, Warren Buffett, o Tio Patinhas do mundo real, tem uma visão que bate de frente com a figura dos quadrinhos. Seu principal argumento é que a capacidade de manter o valor não é o mesmo que uma capacidade de criar valor. Em outras palavras, embora o ouro possa proteger contra perdas em um período de crise econômica como a que passamos, ele não é capaz de gerar riqueza fora de um cenário colapso do sistema econômico global.

Em sua carta aos acionistas de 2012 Buffett explicou sua preferencia por ações de empresas em relação ao ouro, ainda que à época, aqueles que estavam comprados em ouro estivessem ganhando um bom quinhão de dinheiro. Seu argumento central era de que ele preferia investir em ativos reais, que produzissem renda por si só ano após ano, ao invés de especular na valorização de um metal precioso improdutivo.

Seguindo na carta, o investimento em ouro é uma maneira de estar comprado em medo, e até pode funcionar bem de tempos em tempos, desde que você aposte que as pessoas ficarão mais assustadas nos próximos meses do que estão agora. Se elas ficarem mais temerosas, você ganha dinheiro. Se o medo se dissipar, você perde. O problema é que durante essa aposta a mercadoria em si não vai fazer nada para você.

 “Se você juntasse todo o ouro do mundo, daria mais ou menos um cubo do tamanho de um campo de futebol. Esse cubo valeria cerca de US$ 7 trilhões – cerca de um terço do valor de todas as ações americanas. Você poderia ter toda a terra agricultável nos EUA, sete Exxon Mobil (a empresa norte-americana mais rentável à época) e mais um trilhão de US$ em dinheiro. Pode me chamar de louco, mas eu preferiria ficar com a terra e as ações da Exxon Mobil, a ficar olhando para um cubo de ouro o dia todo.” 

O Oráculo de Omaha termina dizendo que um marciano que pousasse na Terra, não iria entender nada ao se deparar ao ver humanos escavando o ouro de dentro da terra, derretendo-o, para então simplesmente depositá-lo em outro lugar e ainda pagar a algumas pessoas para tomarem conta dele.

 Ações para o Longo Prazo 

Comprovando a tese de Buffett na prática, no gráfico abaixo, retirado do livro Stocks for the Long Run, Jeremy Siegel compara os retornos reais (ajustado pelo poder de compra) num espaço de tempo bem esticado para fazer seu ponto – duzentos anos. O que vemos é que em períodos mais longos o ouro funciona muito bem em seu propósito de ser um depositário de valor, mas não como um multiplicador de riqueza. Assim, a despeito de alguns períodos de elevações pontuais, sua real tendência é tão somente de manter o poder de compra frente a inflação. Por outro lado, as ações, mesmo com algumas oscilações, tem uma clara tendência de crescimento, justamente por sua natureza produtiva.

Conclusão 

Por sua característica de fonte de reserva de valor, se bem utilizado o ouro pode se beneficiar nos momentos de tensão ou forte incerteza nos mercados financeiros. Ou seja, até vale a pena ter ouro em sua carteira, desde que de forma estratégica na parcela separada para o curto prazo, nos períodos de crise nos quais a maioria das outras classes de ativos perdem valor. Vale lembrar que para surfar esses ganhos é preciso estar, em algum grau, atento aos movimentos dos mercados, o que requer habilidade e experiência, aliados a uma certa dose de sorte.

Portanto, fica aqui o alerta: na hora de pensar nos investimentos, melhor escutar o velhinho de Omaha do que aquele de Patópolis. Aplicações servem para lucros esporádicos, ou proteção, em períodos de stress dos mercados. No longo prazo, porém, o melhor veículo para criação de riqueza são os ativos geradores de renda, especialmente os produtivos.