Sunday Prates: Ótimas empresas dão ótimos investimentos! Será?

É muito comum confundir ótimas empresas, ótimos gestores e ótimos resultados com concretizações em ótimos investimentos. Entenda porquê.

Uma confusão muito comum no mundo dos investimentos em ações é traçar a relação direta entre uma boa empresa, uma boa gestão dessa empresa, e ótimos investimentos. Em minha opinião esses conceitos podem ser bastante diferentes, e confundi-los é potencialmente perigoso pensando em uma formação de patrimônio de longo prazo. Para quem não leu a análise de Localiza feita pela nossa equipe, que cabe perfeitamente nesta ideia, vale a pena conferir.

“Não há nada mais arriscado do que a percepção generalizada de que não há risco”. Howard Marks

O ponto central é que uma ótima empresa pode sim se tornar um investimento de qualidade duvidosa. Mas antes vamos dar um passo atrás e definir o que é uma boa empresa, uma boa gestão e um bom investimento. Vale ressaltar que são conceitos subjetivos, ou seja, as definições a seguir são as melhores no meu entendimento pessoal.

Qualidade da empresa

Nossa percepção da qualidade de uma companhia está intrinsecamente ligada à sua capacidade  de entregar e manter retorno sobre o capital investido consistentemente  acima do seu custo de capital. Empresas com algum tipo de barreira à entrada de novos competidores costumam ter essa característica, por conseguir evitar a competição por clientes, permitindo praticar margens elevadas.

Qualidade da gestão

A essência da boa gestão é ser realista sobre a qualidade da empresa e adaptar a tomada de decisão para refletir esta realidade e maximizar o valor para a empresa. A qualidade do corpo administrativo será determinado pelas suas decisões de Capex (onde investir os recursos da companhia), as decisões de capitalização (o capital próprio ou dívida, e o montante) e as decisões de distribuição de proventos (quanto dinheiro devolver para os acionistas, e de que forma).

Qualidade do investimento

Dadas as definições acerca de uma boa empresa e um bom corpo administrativo, podemos avançar para os ótimos investimentos. Para uma empresa ser um bom investimento, necessariamente precisamos adicionar na conta a variável preço. Afinal, a melhor empresa da bolsa brasileira, com uma ótima gestão, pode ser um mau investimento se estiver muito cara.

Não estou afirmando que separar boas empresas das más, e determinar se elas estão bem geridas é uma tarefa simples, mas definir quais empresas são ótimos investimentos é fundamental para compreender onde estão as verdadeiras oportunidades e escapar de eventuais armadilhas.

Ótimos investimentos exigem que você seja capaz de comprar uma empresa por um preço abaixo do que seus fundamentos indicam que ela vale. Resumindo, o investidor deve buscar por erros de percepção do mercado sobre a qualidade de uma empresa e de sua gestão.

Como diria Howard Marks, em seu livro “The Most Important Thing”, um pensamento raso no mercado financeiro seria: “Esta é uma boa companhia; vou comprar a ação”. O investidor com pensamento superior vai mais longe: “É uma boa companhia, mas todo mundo acha que ela é excelente, e não é. Portanto, estão sobrevalorizando o papel. Vou vender”. Ou ainda, enquanto um investidor de pensamento raso pensa: “Eu acho que os ganhos da empresa vão cair; É venda”, o segundo enxerga “Eu acho que os resultados da empresa cairão muito menos do que as pessoas esperam, e a surpresa positiva elevará a ação; É compra.”

A maioria dos investidores pensa somente em qualidade para determinar se algo é arriscado ou não. Mas ativos de alta qualidade podem ser arriscados se estiverem precificados de forma excessivamente otimista. A percepção de que o risco corporativo é baixo e o futuro da companhia é positivo, faz com que os preços dos ativos aumentem e, portanto, o risco do investimento seja alto. O problema que acontece a maioria das pessoas não distingue risco da empresa do risco do investimento. Por mais que a empresa continue sólida, se seu preço estiver muito acima de seu valor, a assimetria deixou de ser positiva.

A mensagem central de hoje é: boas empresas não são necessariamente bons investimentos. A percepção acurada da dinâmica de preço dos papéis fará toda a diferença. Timing! A peça que falta no quebra-cabeças da análise fundamentalista.

Independentemente da questão de vantagens competitivas e gestão, o nível de risco do investimento é determinado em grande parte pela relação entre preço e seu valor. Não há um bem tão bom que não possa se tornar sobre precificado e, portanto, arriscado.

Nosso time vive dedicado a encontrar estas janelas limitando materialmente o risco de nossos clientes entrarem em armadilhas. Está longe de ser simples. Mas se fosse fácil… qualquer um faria! Contem conosco, hoje e sempre!