Sunday Prates: muito do que te ensinaram sobre risco estava errado!

A volatilidade mede o grau em que o preço da ação variou, para cima e para baixo ao longo de um período arbitrariamente definido.

Em uma das semanas com oscilações marcantes mais fortes desde a fundação da Eleven, choveram mensagens de investidores sobre CARD3 quando esta caía 18% em um dia e SAPR4, quando esta desabava os mesmos 18%, só que no dia seguinte. Foi impossível não abordar este tema em nossa discussão de domingo.

Em minha opinião, “risco” é um dos conceitos mais incompreendidos em finanças e também um dos que mais pode atrapalhar a sua procura por (realmente) boas ações. Não é difícil encontrar na mídia, ou mesmo investidores profissionais usando volatilidade, risco e incerteza como sinônimos.

Essa confusão é em grande parte devido à forte influência da “Teoria Moderna do Portfólio”, que continua a ser usada, apesar de comprovadamente não fazer sentido (vide crise de 2008). Em sua estrutura está a (falha) ideia de que o risco de uma ação é equivalente à volatilidade de seu preço (o quanto ele varia). É impressionante como tanta matemática complexa foi construída sob os alicerces de uma suposição frágil.

Volatilidade = Risco?

Qualquer pessoa com bom senso que parar para pensar sobre isso por cinco minutos perceberá o quão absurdo é:

  1. A volatilidade mede o grau em que o preço da ação variou, para cima e para baixo ao longo de um período arbitrariamente definido. Risco, por outro lado, é a possibilidade de uma perda permanente de seu investimento. Como igualar conceitos tão diferentes?
  2. Em qualquer caso, a volatilidade mede a variação do preço da ação, e não do seu valor real. Como em qualquer mercado, o preço pode variar de forma totalmente independente deste valor.

Neste simples exemplo teórico (mas que encontramos facilmente na vida real), vemos como dois ativos se comportaram ao longo da última década. O primeiro apresentava baixíssima variação do preço ao redor de sua trajetória crescente. Sendo assim, os teóricos poderiam se abster de uma análise mais profunda sobre os verdadeiros fundamentos da tese de investimento e da companhia NO MUNDO REAL. Caso não tomassem como verdade absoluta a relação entre comportamento de preços e risco, aumentariam substancialmente as chances reais de identificar fatores que, em algum momento, pudessem rapidamente interromper a tendência. Muitas vezes em caráter irreversível (vide algumas empresas X, só para ficar nos casos mais famosos).

Por outro lado, o segundo ativo apresentou bastante volatilidade aos longo dos últimos anos. Em alguns períodos os investidores dessa ação poderiam ver os ganhos de até três anos ir por água abaixo em um único ano. No entanto, aqueles que conheciam solidamente o racional de investimento escolhido e a solidez da formação de valor, seguiriam com o foco no longo prazo e encerrariam o período analisado com relevante e verdadeira valorização de seu patrimônio.

Qual ativo se mostrou realmente arriscado? E extrapolando essa pergunta: você concorda com quem acredita que baixa volatilidade é igual a baixo risco?

A parábola do peru de Ação de Graças

Para finalizar esse post, uma curta parábola que Nassim Nicholas Taleb conta a em seu livro, “A lógica do Cisne Negro” deixa bem clara a verdadeira imagem do que é risco:

“Imagine um peru alimentado todos os dias. Cada vez que é alimentado contribuiu para a crença, por parte do animal, de que é uma regra geral da vida ser alimentado todos os dias por membros amigáveis da raça humana que cuidam dos seus melhores interesses. Na quartafeira anterior ao dia de Ação de graças, algo de inesperado irá acontecer ao peru. Irá protagonizar uma revisão da sua crença. O sentimento de segurança atingiu o valor máximo quando o risco era mais elevado”.

Na verdade a confiança e euforia que Taleb retrata para o peru antes da sua “inesperada” morte, encaixam perfeitamente no sentimento que se vive nas bolsas antes das maiores catástrofes vividas nos mercados mundiais, como a que ocorreu na crise de subprime nos EUA em 2008.

Mas afinal, agora que definimos corretamente qual é o verdadeiro risco para suas ações, o que você deve fazer para se proteger dele? Ou melhor ainda, como sair ganhando com ele?

O mantra da nossa escolha dos ativos que, por exemplo, compõe a Carteira Eleven é: nosso melhor juízo de equilíbrio entre risco e retorno. Combinados! Foco no longo prazo, escolhas de companhias com fundamentos sólidos e com profunda avaliação por parte de nosso time, muito além de planilhas ou power points bem produzidos. Os dois papéis que aqui mencionamos estavam na Carteira nos respectivos dias das quedas. Resultado acumulado? Dois dígitos de percentual acima do Ibovespa em 2017 e 0,2% (dois décimos de ponto percentual) abaixo do índice na semana.

Diversificação, investigação, convicção e visão de valor acima do preço. As reações registradas nos mais diversos investidores ao longo desta semana são puramente retratos da teoria comportamental e psicanalítica, muito mais do que as escolhas de seus investimentos. É exatamente para isso que nosso time trabalha. Identificar assimetrias e apoiar os investidores nos momentos de maior pressão.

Próximo domingo falarei sobre diversificação. Até lá, ótima semana a todos e não esqueçam que o foco deve ser no longo prazo e principalmente que não existe milagre na multiplicação do capital!

* Só para registro… os fundamentos nos levaram a escolher CARD3 a R$ 2,30 e SAPR4 a R$ 6,10, em agosto de 2015 e 2016, respectivamente. Nossas recomendações, considerando o ponto mais agudo das quedas registradas na semana, entregavam 334% e 93% de valorização desde a recomendação de compra.