Super Tuesday! Mr. Caplet em: Dance!

Alguns momentos da nossa vida ficam absolutamente marcados, como se fossem escritos na pedra. Uma vitória, uma partilha, um momento… uma dança! Nenhum de nós é capaz de definir exatamente quando o “clique” vai chegar. A verdadeira hora da redenção… quando os astros se alinham.

Vivemos meses, anos, décadas esperando aquele momento. No meu caso… até séculos. Vou contar uma história que algumas pessoas chamaram de vingança. Eu chamo de reparação. Por coincidência, volto à Jacques Lacan… mas não por causa dele… E sim da divina dama de amarelo! Viverei outros 500 anos sem esquecer aquela chegada. Um exemplo de saciedade e ânsia. Ali, poderia parar e olhar eternamente. Parado observando jamais seria paralisado. E o querer seria consequência natural.

Por outro lado, quando a marca é ruim, vem o ímpeto da redenção. Lembro que, à luz da psicanálise, a vingança “propaga e reafirma um gozo fora da Lei. Supõe um outro gozador, resiliente. Invariavelmente acaba por alienar o sujeito a este Outro. Só uma verdadeira desconstrução pode libertar o angustiado deste Outro. A vingança funciona ao contrário.

Confesso. Nunca engoli o 29 de outubro de 1929. Eu havia lutado com todas as minhas forças. Avisei, alertei… mas os operadores da Bolsa não conseguiam mais conter seus impulsos. Era realmente uma luta de superação, combate e incapacidade de aceitar qualquer nível de frustração. Uma das últimas apresentações que assisti antes daquela que injustamente ficou conhecida como Black Tuesday foi a palestra de Sigmund Freud aos investidores em Viena. Maio de 1929. A coisa já estava feia. Reuni um seleto grupo de americanos e ingleses. Ouviram atentos às explanações sobre o Ego e suas convicções de que nada é por acaso.

Sinceramente, para mim tudo era cristalino. Mas Freud era sim, estranho. Em meio a uma turma de vaidosos, invariavelmente frustrados, ficava difícil aceitar a inegável verdade. O modelo de operação no mercado financeiro havia fracassado. Eu disse a ele para não apelar para as questões, digamos, de foro íntimo, para justificar as atitudes dos supostos milionários. Mas Sig tinha uma acidez que escondia (mal, é verdade) uma superioridade intelectual quase sádica.

Enquanto todos justificavam a luta como uma busca pela materialidade, Freud afirmava categoricamente que o inconsciente estava materializado através da fala, e em atos falhos. A luta do Ego com o inconsciente tirava todos da linha, gerando falhas, frustração, perda e negação. Círculo vicioso incorrigível, sob sua ótica, em operadores de mercado.

Conheci Sig por um amigo em comum, aliás. Russo típico. Inchado de tanto que bebia. Apaixonado por Wagner e sua obra, Sergei Rachmaninoff era capaz de performances que encantavam até mesmo os que diziam não gostar de música erudita, e na verdade não entendiam era nada. Romântico, quase melancólico, lembrava Tchaikovski tocando. Ele, que estava em Bayeruth, terra onde Wagner deixou a maior parcela de sua obra, veio à Viena somente para uma apresentação.

Naquele dia eu já sabia que não haveria controle. Mas nunca me julguei responsável pelo que aconteceu. Confesso que vivi longos anos amadurecendo, em alguns momentos me consumindo. Culpa. Sentimento que só não é pior do que a pena. Eu teria minha hora. E ela veio! Mais de cinquenta anos depois. Antes tarde do que nunca.

Era o começo da década de 80, minha quinta década de 80 é verdade. O ambiente político americano e mundial era tenso. Guerra-Fria.

Desde a fundação do Partido Republicano, em 1856 e das então nascentes primárias, eu sempre fui reconhecido como alguém com trânsito razoável entre os dois polarizadores da política americana.

A verdade era que os Democratas estavam enfurecidos. Jimmy Carter poderia ter sido um excepcional presidente. Defensor da paz, articulador. Admirado. Esqueceu a lição de casa. Sucessivos déficits primários e uma brusca desaceleração da economia. Carter foi melhor para o mundo do que para a América. Foi massacrado por Ronald Reagan nas eleições de 1980. Perdeu em simplesmente 44 estados, inclusive na Georgia, sua terra natal.

O comitê do Partido Democrata entendeu que errou na escolha do candidato. E as prévias deveriam mudar. Iowa tinha muita força nos resultados e acabava influenciando os outros votos. Quando me chamaram para tentar pensar um novo modelo a propor, imaginaram que uma análise histórico-estatística-emocional-político-pragmática poderia mitigar os riscos de alguém tão fraco acabar sendo o candidato do Partido nas eleições majoritárias. Hoje já posso contar… o próprio Reagan não era consenso. “Too much Hollywood” – confidenciou-me um dos principais delegados republicanos à época.

Enfim, tratei de desenhar um modelo que cruzasse as votações históricas, dados de performance econômica, social e tendências demográficas para criar uma concentração de eventos que pudesse ser o mais apurado retrato da pluralidade de realidades das diferentes regiões. Assim, seria capaz de clarear os rumos das eleições a partir do que seria mais próximo de um consenso da expectativa nacional. Eu queria concentrar California, Missouri, Texas, Florida, Tennessee (adoro Memphis), Mississippi, Georgia, Illinois e Washington. Teríamos 73% do PIB e 46% da população. Era uma amostra absolutamente relevante. Consistente, mantinha o drive pedido por todos.

Como foi um momento de desaceleração econômica, racionalização dos recursos era importante. E a concentração das primárias diminuiria a dispersão de dinheiro, mobilizando esforços em uma data única. Sinceramente, não sei até hoje se os Democratas pagaram o preço da ingenuidade ou da soberba. Levaram a proposta adiante, e conseguiram convencer os Republicanos e o Senado a aprovar o modelo. Já não era o que eu desenhei. A política, como quase sempre, se sobrepôs à técnica.

Mas eles foram legais. Junto com meu cheque pelos serviços prestados, Harry Hughes, Democrata e então governador de Maryland, me enviou uma carta de próprio punho afirmando que a América estava agradecida e amadurecida. Afirmou que eu logo entenderia.

Até a primeira manchete da NBC anunciando a primeira “Super Tuesday” eu confesso que não havia dado a correta dimensão da homenagem.

Hughes me ajudou a decretar minha própria alta do divã – transitoriamente, é verdade. Logo recebi uma carta com os dizeres: “Forget Black Tuesday, from now on, there will always be a Super Tuesday“.

A redenção vinda da gratidão superou o desejo de vingança. As memórias ruins enfraqueceram. Eu escolhi dançar para comemorar, com um sorriso do mais puro prazer no rosto. Dancei como se a música nunca fosse acabar. E agora… se os dias ficam escuros e o mercado ou a vida gritam aterrorizados… eu me lembro que sempre haverá uma Super Tuesday, e mais uma dança!

Até a próxima terça!