Termômetro do Mercado – A primeira mensagem do novo Banco Central

No antepenúltimo parágrafo do seu comunicado oficial, divulgado na quarta-feira (20), o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central destacou a importância da “cautela, serenidade e perseverança nas decisões de política monetária, inclusive diante de cenários mais voláteis”. A frase arrematou a primeira decisão do órgão, que sob o comando de Roberto Campos Neto manteve a taxa Selic em 6,5% ao ano e indicou que não pretende ceder às pressões.

Recentemente, o mercado financeiro esteve dividido sobre a Selic. Parte dele pressionava o Banco Central por uma redução na taxa de juros em função do ritmo lento da atividade econômica e, logo no início do seu comunicado, o Copom observou que a atividade evoluiu aquém do esperado, mas ressaltou que a economia se recupera em ritmo gradual.

Para o time de analistas da Eleven, a decisão do Copom foi acertada pois os ganhos de atividade advindos de uma redução adicional na Selic não compensariam o aumento da exposição do país aos riscos internacionais. Aí podemos listar o Brexit, tensões comerciais e instabilidades políticas nos Estados Unidos.

Além disso, existe hoje a necessidade de um aprimoramento dos chamados mecanismos de transmissão da política monetária. Eles são canais por meio dos quais mudanças na taxa Selic afetam o comportamento da nossa economia real. Em resumo, a política monetária afeta os preços da economia por meio: (i) da decisão entre consumo e investimento das famílias e empresas; (ii) da taxa de câmbio; (iii) do preço dos ativos; (iv) do crédito e (v) das expectativas.

Na prática, se a redução da Selic não é repassada de maneira adequada para a ponta, ou seja, para as taxas de juros reais e para o crédito concedido, não vemos qualquer efeito na atividade econômica.

Inflação e Reforma da Previdência

Em seu comunicado, o Copom apontou que o cenário externo permanece desafiador. O órgão enxerga redução nos riscos ligados ao aumento de juros nas economias desenvolvidas, como os EUA e a zona do euro. No entanto, entende que os riscos de desaceleração da atividade global, puxados por incertezas, aumentaram recentemente.

Segundo o comitê, o comportamento da inflação continua adequado e a projeção é de cerca de 3,9% para 2019, 4,0% para 2020 e 3,75% para 2021.

Sobre os riscos, a ociosidade ainda pode manter a inflação futura em níveis excessivamente baixos. Contudo, a possibilidade de o processo de reforma da Previdência não andar ou uma deterioração adicional no apetite externo voltado a economias emergentes ainda representam riscos altistas para a inflação.

A reforma, aliás, continua sendo um fator decisivo para os próximos meses. Na visão do nosso time, o conteúdo da reforma apresentada é robusto e condizente com os desafios fiscais e sociais na economia brasileira. Mas vemos que a falta de articulação política do governo, combinada com suas próprias disputas internas, dificultam a aprovação do projeto enviado ao Congresso. Todo esse contexto deve atrasar a aprovação do projeto.

Nosso cenário prevê que a reforma da Previdência seja aprovada em meados do terceiro trimestre, com um ganho fiscal de aproximadamente dois terços da proposta original. Além disso, vemos que a recuperação da atividade, antecipada pela melhora nos indicadores de confiança, deve contribuir para uma aproximação da inflação para meta.

Dê tempo ao tempo

Outro ponto que mereceu destaque na decisão do Copom foi a inclusão de um pedido de tempo para observar o comportamento da economia. Essa observação, segundo o comitê, leva algum tempo e não deverá ser concluída no curto prazo.

Dado que a evolução dos indicadores econômicos atuais inclui, em seu cálculo acumulado, as incertezas e choques de 2018, como as eleições e a greve dos caminhoneiros, serão necessários alguns meses até que a inércia que contamina esses dados se dissipe.

A partir de junho, espera-se que a inflação acumulada apresente queda considerável, uma vez que o aumento de preços advindo das paralisações deixa de ser contabilizado no IPCA (Índice de Preço ao Consumidor Amplo) de 12 meses. Em suma, o BC pede tempo para avaliar se a atividade econômica pode estar subestimada e/ou se a inflação pode estar superestimada. Até lá, não devem ocorrer mudanças na taxa de juros.

Nossos analistas projetam que o BC deverá elevar a Selic em 25 bps somente na reunião de setembro, intercalada por uma pausa da reunião de novembro e sucedida por outro aumento de 25 bps em dezembro, terminando o ano em 7,0%.

Indústria (RAPT4). Randon anunciou, na última quinta-feira, uma nova emissão de debêntures com o objetivo de captar R$ 400 milhões. A emissão é simples, não conversível em ações e voltada a investidores profissionais. Os títulos vencerão em sete anos e terão remuneração de CDI+1,2% a.a. Ao final de 2018, a companhia apresentou uma dívida bruta de R$ 2,8 bilhões, sendo R$ 854,2 mil a vencer no curto prazo. Os valores arrecadados serão utilizados para o alongamento do passivo. O aumento do endividamento de Randon em 2018 foi devido a aquisições realizadas e aumento da NCG, com o crescimento do volume de produção. Acreditamos que Randon não apresenta dificuldade para cumprir com suas obrigações.

Bradesco (BBDC4). O Bradesco comunicou que o Banco Central aprovou o aumento do capital social no valor de R$ 8 bilhões, elevando-o de R$ 67,1 bilhões para R$ 75,1 bilhões, com bonificação de 20% em ações (2 novas ações para cada 10 ações da mesma espécie possuídas). Serão beneficiados acionistas que estiverem inscritos nos registros do BC em 29/3/2019. A partir de 1º/4/2019, as ações passarão a ser negociadas ex-bonificação. As ações oriundas da bonificação serão incorporadas à posição dos acionistas em 3/4/2019, estando disponíveis em 4/4/2019.

Telecomunicação. A empresa de telecomunicação mexicana América Móvil, presente no Brasil por meio da Claro, chegou a um acordo com a NII Holdings e a AI Brazil Holdings para aquisição de 100% da Nextel Brasil. O acordo prevê o pagamento de US$ 905 milhões, livres de dívida e caixa. A operação ainda depende da aprovação pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicação) e o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A Nextel possui outorga de uso para frequências em 800 MHz e 1,8 GHz em serviço móvel especializado e 2,1 GHz no celular e deverá reforçar a presença de Claro, que ganhará espectro em algumas áreas metropolitanas. O anúncio põe fim às especulações que consideravam também uma possível aquisição pela Tim Participações e Telefônica Brasil.