To Green or Not to Green

O destaque do Ibovespa ficou para as ações ligadas ao Minério, que seguiram sua sina de volatilidade e hoje tiveram fortes altas.

Estudei, morei, trabalhei. Enfim, vivi de alguma maneira a vida toda ligada aos EUA. Sou um profundo admirador de seu modelo de sociedade. Nação. Economia.

A “América” tem vários defeitos e muitos deles tão sérios que limitam a vontade até de um admirador como eu em definitivamente morar por lá. Ignorância geopolítica, uma dose muitas vezes excessiva de soberba, tiroteios em escolas, risco de terrorismo e a impessoalidade são alguns dos pontos que jamais me farão deixar nossa tão atrapalhada Pátria Amada para viver por lá.

A questão aqui não é um comparativo entre países, mas uma análise da oportunidade (ou não) de investir em Dólar neste momento ou nos EUA.

Abaixo uma ilustração do comportamento da cotação do US$ frente ao Real nos últimos 12 meses:

grafico USSBRL

Vejam que de 08/10/14 até 08/10/15 a valorização da moeda americana frente ao Real foi de 60,74%, já considerando a pequena queda pós-pico de R$ 4,1783 atingido em 23/09. Aqui reside uma potencial armadilha muito importante. As principais razões para tamanha oscilação do câmbio foram o desequilíbrio das contas públicas, a perda da confiança do investidor internacional no país e a estagflação, que é a combinação do movimento inflacionário com o quadro recessivo.

Por mais que o cenário atual ainda possa ser muito duro e de pouco otimismo, é coerente afirmarmos que a desvalorização do Real tende a perder intensidade nos próximos meses. O recado do mercado já está sendo dado. O quadro político está processando e tentando articular uma combinação de salve-se quem puder com não vamos morrer todos abraçados.

Mas atingimos um importante e perigoso patamar de desequilíbrio no crescimento violento do endividamento do governo e das empresas a partir das operações em moeda forte. É razoável afirmar que por mais sofisticada e conservadora que fossem as gestões, quase nenhuma (para não dizer nenhuma) companhia brasileira estava travada em instrumentos de proteção cambial (ex: hedges) para tamanha oscilação em tão curto período de tempo. As intervenções do Banco Central através da venda de contratos futuros de swap cambial não foram suficientes para conter a deterioração de valor da nossa moeda.

Mas agora o jogo é outro. Um próximo salto beiraria o colapso das relações de balança comercial, de pagamentos e transações correntes. Para quem não entrou no dólar até então, agora o tempo passou. Não há aqui nenhuma pretensão de realizar profecia similar à do ex-ministro da fazenda ao afirmar que “quem apostar no dólar vai perder”. É uma questão de constatação e análise do quão exequível é uma nova desvalorização tão grande sem corroer de vez as estruturas da economia nacional.

Antevemos um comportamento menos volátil do Dólar, considerando que efetivamente há um reposicionamento de patamar. Da mesma forma que não vemos caminho para sustentação de uma cotação próxima dos R$ 4,75/R$5,00, não imaginamos um retorno para a casa dos R$ 2,75/R$3,00. Isso significa que os fundamentos econômicos brasileiros não suportariam tal variação para um lado ou outro em espaço de tempo semelhante.

A tarefa de casa ainda é árdua, mas olhamos seguramente para nossa Bolsa de Valores como um concentrador de melhores oportunidades neste momento (sem generalizar) do que investimentos em dólar. A conversão está machucando o montante de capital nacional neste momento. Para que um investimento escolhido neste momento supere as opções que temos por aqui, o perfil de risco não justifica o risco cambial.

Moody’s, Fitch e sua turma sabem que o Brasil não é a Grécia, nem a Argentina. Só para constar até estes já estão recebendo algum investimento novamente. A hora é de muito cuidado, e de investimentos no mundo (do) Real (literalmente). Tio Sam pode esperar um pouco mais!