Trump de bombacha!

Mais um dia em que o mercado internacional parou para ver Donald Trump falar. Desta vez, migrando da retórica que tem marcado suas projeções e promessas, para uma medida protecionista prática. A decisão de criar uma sobretaxa (dumping) de 25% ao aço internacional e 10% ao alumínio, trouxe pouca tensão adicional aos mercados. Em essência, porque o Commander in Chief, nem quando bate, tem conseguido fazer-se sentir imediatamente.

Hoje foi a estréia do dumping pré-datado. Se terá fundos ou não, ainda não sabemos, mas mesmo assim, avaliamos alguns efeitos por aqui.

A companhia mais diretamente impactada é a Gerdau, para qual o mercado norte-americano (ON América do Norte) representa 40% da receita líquida e 18% do Ebitda. Enquanto a primeira reação parece negativa, em nossa leitura, pode haver acréscimo de curto prazo nos preços praticados nos EUA. Este movimento pode ajudar a Gerdau a acelerar seus resultados, principalmente se observarmos que a terra do Tio Sam é o mercado com menores margens para a companhia e a capacidade ociosa é muito alta. Alavancagem operacional é ótima notícia. 

Falando do mercado financeiro, este bicho esquisito e com vida própria, que nem sempre prima pela razoabilidade, pode-se tentar disseminar uma versão século XXI da Teoria do Caos. Vamos lá: começam os movimentos protecionistas e de retaliação mundo afora. Os governantes esquecem que a globalização tirou a autossuficiência do radar das principais economias do mundo e a interdependência virou a nova normal. Assim, haveria um desequilíbrio em cascata para que todos pudessem se readaptar, agora a uma realidade na qual estaríamos ilhados e vivendo em modo “cada um por si”. Assim, ninguém mais vende para ninguém, a China desenvolve comida sintética de baixa qualidade, para de importar commodities brasileiras, a Australia desenvolve uma técnica revolucionária de transformação do minério em celulose e a União Européia se une para transformar a Grécia em um grande balneário turístico enquanto o restante do antigo território outrora habitado por Platão seria pavimentado, virando estacionamento do excedente de produção dos automóveis ingleses, alemães, franceses e italianos. Se bem que este últimos já poderiam ter se ajeitado com algum governo revolucionário do ocidente africano aceitando títulos da dívida em Rands para escoar toda sua produção. “I mercati emergenti sono fantastici”.

Será? Não ! Mil vezes não. O racha no Partido Republicano é cada vez mais visível e a acomodação das decisões e dos ímpetos advindos do Salão Oval tende a ser inevitável. Os próximos quinze dias, mais do que exercícios hercúleos de diplomacia e negócios internacionais, devem servir para doutrinar Trump para a compreensão dos limites de causa e efeito de cada uma das decisões bi ou multilaterais.

Mas e se realmente houver uma barreira ao aço internacional? Qual a chance da sobreoferta inundar o mercado brasileiro e a mesma Gerdau ver cair por terra os resultados no país que representa 43% do seu Ebitda? Basicamente irrisória, eu diria. Pensemos. Já existe um controle internacional de oferta do aço, os preços no mercado nacional de vergalhões, por exemplo, não abrem grandes espaços para malabarismos logísticos cambiais. Indústria da construção civil ainda não está tão aquecida, em níveis de chamar atenção global como uma demanda pulsante. Sem mistérios também em aços longos.

Talvez seja noite de, ao invés de afogar as mágoas tomando uma Budweiser só para comemorar que a cerveja dos imperialistas já é nossa, fazer uma bela churrascada pensando em como aproveitar o mundo no qual o twitter é ferramenta de dinâmica do Estado e das relações internacionais, e lembrando que nestas horas, a irrelevância geopolítica pode ajudar! O Brasil é legal, ainda mais em equilíbrio, exportando agro e importando produto acabado. Quem quer brigar conosco? A gente nem sabe brigar!

Prepara o chimarrão que o Trump tá vindo de bombacha, tchê!