Tuesday Caplet em: A estratégia do oceano azul

Renda Fixa publicou uma extensa análise sobre emissores de CDBs, LCI's e LCA's, com nossa visão de risco para cada um e tese de atratividade.

Nem sempre um boato é ruim. Corria pelos corredores de Harvard uma história muito peculiar a meu respeito. Mais do que um boato, era uma hipérbole!

Diziam que o famoso Ford “T” de Henry Ford, que revolucionou a indústria automobilística era uma homenagem ao meu nome. Confesso que deixei a história rolar. Rendeu-me alguns dólares ao longo do século XX. Sendo sincero com vocês, o máximo que dei a Henry, foi a percepção de controle de custos, minimização de dispersão de insumos por padronização. Não mais que isso. Ele era meu amigo. Nunca fui contratado pela Ford. Passamos horas em bares e galerias de arte juntos. Quando comprei meu primeiro Winslow Homer, em Chicago, estávamos juntos, na virada do século XIX para o XX. Mal sabiam eles das horas e horas que passamos eu, ele e o vizinho doidão. Chamávamos ele de “gênio da lâmpada”. E não estávamos errados! Thomas Edison, depois de me fazer queimar o dedo seriamente (tenho a cicatriz até hoje) em uma resistência de testes, fez a tal da engenhoca funcionar. Este fazia arte, mas de outro tipo!

O Quadro de Homer, 1899
Após o Tornado, Winslow Homer, 1899

Enfim, sempre gostei de Harvard. Mais do que a grife, via na Universidade uma juventude ávida por conhecimento. Melhor que isso só em Chicago. E a “windy city” sempre foi mais liberal que Boston. Cachorro-quente melhor e com pessoas mais amigáveis (no verão).

Lá perto de 1995 estava em uma exposição no MoMA em NYC, quando encontrei Sally Zeckhauser, então vice-presidente administrativa de Harvard. Ela vinha acompanhando um projeto editorial com muito carinho. Era uma idéia do sul-coreano W Chan Kim e de Renée Mauborgne, uma aposta de Sally para o futuro. Eles  tinham uma abordagem completamente nova sobre estratégia empresarial e concorrencial. A Editora da Universidade achava que a tese era fantástica, mas faltava, nas palavras de Sally, um “toque de experiência” ao modelo.

No lugar de tentar superar a concorrência a fim de obter uma parte de um mercado já existente, é melhor buscar um mercado virgem (não atingido por ninguém) com potencial de crescimento. Nos primeiros, as regras são determinadas pela concorrência; nos sugeridos, a concorrência se torna irrelevante.” Parecia fazer sentido. 

Eu adorava a Sra. Zeckhauser. Dividíamos paixões. Literatura, arte e vinhos. Naquele dia no MoMA, confesso que pouco conseguia focar na exposição. Desde que “ela” chegara. Parecia que todos meus 535 anos haviam sido um mero período de espera. Em meio a uma fantástica exposição de Kandinsky, que mostrava o quanto aquele russo, muitas vezes controverso, havia sido importante para a arte abstrata do século XX, só conseguia pensar naquele olhar. Mas não eram só os olhos. Azuis como o mais belo mar caribenho, vinham acompanhados de um conjunto aparentemente perfeito. A sobriedade da maturidade, a certeza da elegância, do charme e da relevância. A exposição era menor que ela! Qualquer que fosse o artista.

Sally me contou a história toda do livro e da tese. Só consegui responder a ela que iria a Harvard ajudar. Azul, azul, azul. “Oceano azul Sally!!!” – eu disse. “Terras não descobertas, águas não navegadas, mas que estavam lá. Amadurecendo, melhorando, atingindo o ponto ideal“. Se a tal revolução era apostar no ainda inexplorado, fugir da concorrência e viver o ineditismo… tudo parecia convergir. Ah, minha amiga mal podia imaginar quão monotemática estava minha cabeça àquela altura.

Quando cheguei a Boston, Renée me buscou no aeroporto. Ao entrar no seu carro ela brincou: “Mr. Caplet, o Ford Taurus desta vez é certamente em sua homenagem. Sua história com Henry Ford é incrível.” Passamos horas debatendo tudo o que eles pretendiam. Visitamos duas turmas, quatro grupos de estudo e ao final… ela me disse que realmente “A estratégia do oceano azul” parecia um nome forte para a revolução que pregavam, chancelada pela tão cobiçada Editora Harvard Business Review.

Fomos jantar e celebrar a definição. O “Mon vin préféré” tinha obras de Henri Cartier-Bresson por todo o salão, e obviamente uma carta de vinhos imbatível! Ela e W. Chan Kim me perguntaram de onde eu havia pensado naquele nome (palavras deles) “tão genial“. Contei uma história sobre Ártemis, deusa grega da Lua. Uma forma lúdica de explicar o encantamento pelos olhos azuis. Dela!

Desde então, em respeito a essa relação e à natural admiração pela obra realmente fantástica, usei a “Estratégia do Oceano Azul” diversas vezes como racional fundamentalista para minhas teses de investimento. Como vocês já sabem, decidi na minha vida que somente aplicaria meus recursos em ativos que realmente valessem a pena. Não por coincidência, os maiores retornos que obtive foram em companhias com modelos disruptivos, consistentes e inovadores. Lembram do caso da Radio Shack? Já contei a vocês não é mesmo? Timing faz toda a diferença. Sempre!

Não gosto de commodities. Muito voláteis. Dependem de tudo o que a tese prega evitar. Mais do mesmo. Uma imensidão de fatores influentes de pouca consistência. Não há inovação ou diferenciação. É um exercício de apagar fogo diariamente, esperando o próximo boato do outro lado do mundo. Até sinto falta do século XVII, quando o planeta era enorme.

Aqueles que realmente navegaram em oceanos azuis viraram casos incontestáveis de investimento e sucesso.

Apple. Graças ao seu iPod conseguiu mais de 60% da indústria de reprodutores de música digital. 

CNN, em 1980 começou a emitir notícias 24 horas por dia sete dias por semana.

Cirque du Soleil. Inventou um novo tipo de espetáculo circense, que em menos de 20 anos, produziu lucros comuns que ocorrem nos circos normais em 100 anos.

Por fim, mas obviamente não menos importante, meu amigo Henry. Graças ao modelo T, em 1908 custando metade do preço dos automóveis existentes, mudou a maneira como o mundo dirigia, e principalmente, comprava carros.

Quando queimei meu dedo naquela resistência, em um dos mais divertidos momentos em sua casa, com Thomas na cozinha, Henry disse: “O passado serve para evidenciar as nossas falhas e dar-nos indicações para o progresso do futuro.Nunca mais queimei o dedo. Edison e Ford entraram para história. 

Assim como a deusa grega Ártemis!

Até a próxima-terça!