Tuesday Caplet em: a história da sequoia (direto de Davos)

O Brasil tinha o Presidente Médici e seu Milagre Econômico. Cofres abertos, incentivo ao consumo, à concorrência. Programa de controle da inflação.

Era o começo de 1971. Confesso que havia perdido um pouco da noção do tempo, pois acabei permanecendo meses no Brasil após a conquista do tri-campeonato mundial pela então amada seleção canarinho. O primo da vizinha do cunhado do irmão de um amigo do tempo de Banco Mundial nos apresentou Carlos Alberto, o capitão. Confesso que por alguns meses pensei em não voltar mais para a Europa. O ambiente era acolhedor e motivador demais no país inteiro.

O Brasil tinha o Presidente Médici e seu Milagre Econômico. Cofres abertos, incentivo ao consumo, à concorrência. Programa de controle da inflação. Obras incríveis como a Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói. Ninguém segura este país. Parecia que o Brasil deixaria de ser o país do futuro. Seríamos logo uma potência. Engraçado. Enquanto escrevo hoje me parece que já ouvi esta descrição algumas outras vezes. Deve ser só impressão. Coisa da idade mesmo.

Mas divago… Eu trabalhava em um projeto de longo prazo encomendado por Klaus Schwab e que visava o fortalecimento das instituições européias, principalmente no alinhamento de interesses econômicos e políticos que pudessem convergir mais rapidamente para a solução de conflitos. Lembro-me de receber uma carta em um pequeno apartamento alugado na Tijuca, Rua Haddock Lobo. Ao lado do então recém-inaugurado cinema Madrid, onde eu havia assistido dias antes à estréia de Love Story. Eu e Maria. A carta era muito objetiva, muito diferente das comunicação tradicionais do Sr. Schwab.

Dear Mr. Caplet, Please acknowledge we need you to be in London by May 23rd. Funds for your ticket are available. See you soon, KS

Marquei o mais rápido que pude um vôo no DC-8 da Varig, surrupiado da Panair após o governo dissolver a companhia e passar todas as suas rotas para a Viação Aérea Rio Grandense.

Tive a honra de receber a informação, logo ao desembarcar em Londres, que era um dos três selecionados para formatar o primeiro encontro do European Management Forum. Foram convidados 444 profissionais das mais diversas empresas da Europa Ocidental e Associações Industriais. A reunião aconteceria em Davos, nos Alpes Suíços. O sucesso foi tamanho que o encontro passou a chamar-se Fórum Econômico Mundial e de lá nunca mais saiu.

Ontem cheguei para a 45a. Edição do Fórum. Perdi somente dois. O primeiro por conta de uma violenta virose em 1974 e o segundo mais recente, em 2001, enquanto prestava consultoria para a equipe de transição de Bill Clinton, preparando o pacote de medidas do último ano de mandato. A cidade continua charmosa e confesso uma certa simpatia por ser reconhecido por basicamente todos os donos de restaurantes da pequena e acolhedora cidade. Recuso-me a ficar na fila dos idosos, acho que tem gente aqui que precisa mais do que eu. Mas sempre me encontram uma mesa especial. Afinal, foram 42 participações sem contar a de hoje.

A agenda da semana para mim está um tanto tumultuada por conta do tema. Quarta Revolução Industrial. Não é necessariamente agradável ser o único participante que viu ao vivo as três anteriores. Minha memória falha muitas vezes. Ouvi hoje cedo em uma conversa de café da manhã, A. Michael Spence, Nobel de Economia em 2001, afirmando a um colega, que confesso não ter reconhecido: “Um dos maiores desafios econômicos de 2016 é reverter a deterioração do padrão global de crescimento“.

Concordo. Essa frase me lembra claramente a associação que ouvi de Darwin, meu pupilo preferido há um bom tempo atrás, sobre a sequóia. Esta árvore imponente, que chega a atingir dezessete metros de diâmetro e é reconhecidamente a maior do mundo, não ultrapassa os 95 metros de altura. O que isso quer dizer? Ainda que ela seja a maior, mais robusta, mais resistente árvore do planeta, cuja casca a protege inclusive do fogo, ela não cresce até o céu.

Este ano começou com tanta pressão sobre a China. O mundo parece desesperado com a capacidade “reduzida” que o gigante asiático tem de crescer neste que passou e nos próximos anos que virão. Em 25 anos, o país cresce menos de 7% ano/ano pela primeira vez em 2015. Acho que seu tronco está engrossando. Sua casca ficando firme, resistente, e seus galhos alcançando a altura máxima.

Fico olhando todos estes economistas, chefes de Estado, Ministros, investidores. Tanta gente aqui tentando resolver um mistério que para mim honestamente parece simples. A China parece estar mudando de estágio na vida. Quando deixa de ser emergente, e passa a assumir definitivamente sua posição de potência global. Economicamente desenvolvida. Certamente sua casca está pronta. Socialmente tem muito a melhorar. E isto para o mundo deveria ser a melhor notícia e não o contrário. A globalização criou no mundo uma percepção de união que muitas vezes é transformada em transferência de responsabilidade. Hoje tudo é culpa da China. Mao-TSe-Tung (que nunca gostou de mim, é verdade) deve se revirar no túmulo.

Outro dia Xi-Jinping me disse ao telefone. “Por que não me deixam fazer minha lição de casa? Aqui eu fabrico tudo, menos milagres.” Eu entendo ele. Ajustar o câmbio, a produção, importações, exportações e ainda equilibrar a relação interna de consumo. Árdua tarefa. Hoje vigiada o tempo todo por olhos ansiosos mundo afora. Acreditem que a posição do líder de um país com aproximadamente 1,4 bilhão de pessoas pode ser incrivelmente solitária. Falta muita gente conseguir comer e consumir por lá. Para a sorte do mercado mundial, a China tem a solução dos seus problemas dentro de casa. E honestamente, parece estar fazendo sua tarefa.

Mas toma tempo. Petróleo, minério, aço, produtos agrícolas. Se a China não comprar estamos perdidos, bradam analistas do mundo todo. Quietinhos, alguns criam espaços de investimento de valor nas janelas que se abrem. Outros, ainda mais quietos, fazem verdadeiras fortunas apostando dinheiro dos outros em operações especulativas que dependem desesperadamente do pânico geral para poder determinar tendências muito agudas e rapidamente mutantes nos mercados.

Tudo vai assentar, pois ainda não há perspectivas de fornecimento de produção terrena para habitantes de planetas vizinhos. As coisas e contas vão se reequilibrar. OS EUA seguirão tendo o maior PIB nominal do planeta, mas o Gigante Asiático tomará de vez a ponta no ranking de PIB por Paridade de Poder de Compra (com a equiparação de valores com as distorções cambiais). E assim que isso não for mais dúvida para o mundo, nós (sim, NÓS), inventaremos alguma outra razão para vender o medo e a incerteza. O dinheiro continuará circulando, mudando cada vez menos de mãos, mas permitindo que se crie lucro e riqueza. Assim, justificaremos a necessidade e as expectativas de crescimento eterno.

Doce ilusão. Até lá, vou sentar à sombra de uma sequóia e aguardar a próxima vez aqui em Davos. Só para entender qual será o novo medo.

Até a próxima terça.