Tuesday Caplet em: além da rua dos muros

Alguns movimentos da economia são óbvios. Mas o mercado insiste em fazer de conta que não enxerga. É assim desde sempre.

Alguns movimentos da economia são óbvios. Mas o mercado insiste em fazer de conta que não enxerga. É assim desde sempre. Nunca gostei de dizer “eu avisei”, mas muitas vezes foi inevitável.

Completei 100 anos em 1560, ainda idealista como todo jovem. Olhava todos aqueles navegadores, exploradores e futuros donos do “novo mundo”, pensando… um dia eu quero ser parte da história. Minha primeira grande e verdadeira paixão nasceu por aí. Aliás, as duas primeiras. Uma delas dura até hoje. Os investimentos. Antes de entrar nela, vou contar a parte curiosa da outra história.

Apaixonada pela arte. Como sempre fui. Eu sei que evito falar dos meus pais, mas vale a pena lembrar o quanto foram importantes na formação da minha concepção de mundo. O século XV no interior da Inglaterra ainda era um tanto conservador. O povo ainda achava que éramos o centro do mundo. Minha mãe e meu pai sempre me incentivaram a olhar além disso. Jesus, Maomé, Moisés. Confesso que nenhum deles foi capaz de me preencher sob a ótica da razão de nossa existência e de até onde poderíamos ir. Kardec veio três séculos depois, mas isto é papo para outra hora.

Havia uma mulher. Quase que somente uma. Parecia nórdica. Olhos claros, cabelos reluzentes como ouro, que passeava pelos arredores do na Ilha de Wright, à beira do Canal da Mancha. Passávamos as férias por lá. Boa parte dos meus estudos naquele momento da vida foram focados em impressionar a dama. Sua casa parecia uma galeria de arte. Ela tinha um Boticelli, com que um candidato a marido a tinha presenteado. Não era o nascimento de Vênus e nem a Primavera, mas era incrível. Enfim, ainda no ímpeto da juventude, prometi a ela conquistar a América. Seu sorriso iluminava o caminho que eu pensava em passar. Seus olhos seriam capazes de me guiar pelo escuro. Até cozinhar para ela tentei. Adorava siri a sapeca! Fugiu de mim como louca, mas eu atravessaria o oceano por ela.

E assim o fiz. Quando soube que ela estava embarcando em um dos navios rumo ao novo mundo, tratei de me jogar dentro dele. Disse a um dos meus melhores amigos que eu pretendia explorar algo novo, alinhado com tudo o que sonhava para o futuro.

Quando chegamos a Nova Amsterdã, rapidamente compreendi que havia uma demanda maior do que oferta por espaço nos navios que ligavam a América à Europa. Tratei de criar uma “banca de contratos”. Junto com os principais donos de navio, passei a vender espaços nas embarcações na forma de contratos de despacho. Ao comprar aquele papel, os produtores ou intermediários teriam direito garantido a um espaço proporcional em um dos próximos navios. Southampton era o destino mais valorizado.

Em um dos dias em que, confesso, cheguei atrasado por conta das minhas aventuras atrás da minha paixão, encontrei alguns comerciantes brigando por espaços em navios que só partiriam dali uns meses. Foi uma daqueles momentos em que falei sem pensar. Disse bem alto: “Contratos futuros aqui!!!! Navios mais rápidos e maiores a preços de ocasião!!!”

Eu não tinha a menor idéia se haveria aqueles navios, para ser bem sincero. Mas o que importava? Tudo aquilo derivava de expectativas. Eles faziam questão de pagar para que pudessem sentir-se poderosos. Uma falsa porém suficiente sensação de sucesso os fazia aplicar recursos em algo incerto. Pensei… isso deriva da ganância… “Aqui derivativos!!!!” – funcionou! Foi demais! Paguei por minha primeira viagem romântica, intensa, apaixonada com Ela vendendo vapor…

Naquele momento compreendi que assim como no amor, em investimentos as decisões eram baseadas em expectativas. O indivíduo criava um mundo ideal, convergindo todos os fatores sobre os quais não se tinha o menor controle, para um quadro de conveniência. E apostava alto nisso.

Fiz tantos negócios ali, com tantos parceiros e intermediários, que, sob o argumento da proteção para eventual chegada dos índios, consegui unir esforços e construir muros muito altos. Tamanha era a imponência das construções que todos sabiam que ali, na rua entre as muralhas, chamada pelos locais de “Wall Street”, eram negociados os melhores contratos futuros do mercado.

Quando, lá no século XVIII, os holandeses perderam o controle dali para os ingleses, e viram a vila mudar de nome para Nova York, tiveram aquele nome subtraído em um movimento quase irônico de demonstração de poder. A rua dos muros passou a concentrar mais do que as operações de contratos de navegação. Moedas, produtos e os mais diversos ativos eram ali transacionados.

Meu sonho era que o lugar onde comecei tudo por amor, ou melhor, por paixão, pudesse fazer sentido ao mundo dos investimentos.

Hoje meu cantinho é conhecido como a esquina de Wall Street com Broad Street. Curiosamente, onde deixei o primeiro buquê de lírios para Ela. Eu já tinha aprendido que tulipas eram um perigo!

Alguém duvida? Experimentem um contrato de embarque futuro das flores holandesas… vocês vão entender que às vezes pode ser melhor Temer do que arriscar tudo!

Até a próxima terça!