Tuesday Caplet em: Brexit de Emergência

Se a Grécia era um peso para a Europa e não saiu, a Rainha pode escancarar uma fragilidade de estrutura na Europa por inteira. Entenda.

Sério, eu amo trabalhar. Mas gente inconveniente me irrita. Coisas da idade. A tolerância não é mais a mesma, principalmente nos raros momentos em que busco refúgio, silêncio e descanso.

Hoje com todas as coisas “espelhadas” e as traquinagens do Steve Jobs funcionando, cada vez que toca meu telefone, apita tudo… meu desktop, meu laptop, meu ipad e meu telefone. Holy Moses!!! Assim diria uma grande amiga lá da Terra Santa. Cada susto que eu levo. Ontem foi um tal de tocar, tocar, tocar… é tanta coisa para silenciar que acabei atendendo.

Mr. Caplet… Can you take a quick call? Mr. Carney and Mr. Cameron would like to have a word with you.”

Meninos ansiosos. Eu já havia respondido um email afirmando que ligaria. Parece que é urgente mesmo.

Segundo eles, depois da marcação do referendo sobre a eventual saída da Inglaterra da Zona do Euro a Rainha quer algumas análises independentes. “Nada de americanos. Eles não entendem nossa tradição. Nada de alemães. Muito prepotentes e nunca entendem nosso humor. Quero alguém daqui. Experiente” – ordenou Elizabeth II. Bom.. nem preciso falar. Nascido em Edimburgo (lembrando que o marido da Rainha era o Duque de Edimburgo), tenho as mais fortes raízes e valores bretões… quanto à experiência… já passei por 12 rainhas (acho que é isso… já perdi as contas)!

Mais importante que isso… fui um dos técnicos convidados para opinar na estrutura do Tratado de Maastrich, depois em Roma e Berlim. Mas, lá, não gostaram muito de mim. Achei que não ia dar certo. Emiti à época um parecer que apontava algumas distorções de concepção. A criação da moeda única, se não desprezou, subestimou as colossais diferenças de estágio e realidade dentre os países que aderiram ao Euro.

Assim defini minhas observações à época:

Definir regras de relação dívida x PIB ou simplesmente de política monetária sem observar as enormes diferenças demográficas, de estrutura de contas públicas, poupança e produção é de uma miopia inconcebível. Não há como esperar que um Banco Central possa ditar regras lineares a países, para dizer o mínimo, com níveis de estabilidade. As pressões que deveriam ocorrer por livre flutuação das moedas serão refletidas nas indústrias, níveis de consumo e inflação.”

O chamado que recebi agora fez com que a imprensa inglesa, tão adepta ao sensacionalismo, acusasse o Palácio de Buckingham de tentar manipular a opinião pública. Confesso que entendo que não exista outra alternativa. Recentemente vi Mark Carney, em entrevista ao Charlie Rose, colar muito mais suas ações e reações em relação às taxas de juros ao FED e a Janet Yellen do que aos objetivos do Banco Central Europeu.

David Cameron é muito mais próximo ao Mario Draghi e aos objetivos da Zona do Euro. Ao mesmo tempo, um defensor da Libra Esterlina e do modelo inglês de condução. Ele e Merkel andaram discutindo em um jantar no qual estávamos eu, Luis de Guindos (Ministro da economia espanhol), a Chanceler Alemã e o primeiro-ministro inglês. Para que o The Sun não expusesse a história, acabei passando por desastrado e causador da discórdia. Sempre culpa do vinho! Era uma vez um Bordeaux.

Há os que defendam a permanência inglesa como fundamental para manter a grandeza, relevância e estabilidade da Europa como potência econômica. Um país que aderiu ao tratado sem unificar moeda, deixando evidente o quanto sua preocupação com a Libra e sua estabilidade é maior do que ao conjunto da obra, que mal pode fazer ao deixar o grupo?

A remoção do PIB inglês, da liquidez de seus mercados e do volume de livre comércio por ali realizado pode eventualmente enfraquecer. Considerando que a chance da Inglaterra precisar do socorro do BC europeu é absolutamente remota, a perda é maior para o grupo do que para o país. Dificilmente haverá mudanças nos compromissos com o meio-ambiente, de imigração e cooperação em políticas sociais e nos departamentos de justiça.

Se a Grécia era um peso para a Europa e não saiu, a Rainha pode escancarar uma fragilidade de estrutura que devolva a todos a necessidade de cuidar de seus próprios assuntos. Bem que Merkel falou “por engano” duas vezes naquele jantar em valores indexados ao Marco Alemão. Achei que era a idade! Ledo engano!

Lembro-me da boa e velha Stratford, onde vivi por tanto tempo. Terra de Shakespeare tinha uma praça com os dizeres do seu filho mais notável:

Chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras.

God save the Queen! E que o humor não seja o recurso inglês mais desejado!

Até a próxima terça!