Tuesday Caplet em: como ganhar (e perder) dinheiro com telefonia!

Com o investimento de valor, a família Bell pode financiar a Guerra das Patentes criada nas cortes americanas e ainda fundar seu instituto. Confira.

Eu não sei vocês, mas eu tenho um orgulho enorme da minha terra natal. Outro dia recebi um email me perguntando porque eu falava tanto de Stratford e pouco de Edimburgo. Na verdade foram algumas coincidências de temas e das histórias do tempo em que vivi por lá. É minha segunda terrinha de coração. De lá saiu William Shakespeare. Mas hoje resolvi contar uma história da boa e velha Escócia.

Comemorei meu aniversário de 400 anos em Edimburgo. Foi uma grande festa. Não é todo dia que se completa quatro séculos cheio de saúde. Como eu havia sido condecorado alguns anos antes pela nobreza escocesa, pude fazer minha comemoração em um dos jardins do Castelo. Uma das vistas mais incríveis que já vi. Mesmo morando longe, eu sempre comprava botas e sapatos de Alexander Bell. Velhinho (olha eu falando da idade alheia) mais do que talentoso, que passou grande parte da vida ajudando deficientes auditivos enquanto mantinha sua profissão oficial de sapateiro para custear os estudos da família.

Ao chegar na festa Alex me apresentou seu neto. Aos 13 anos, Graham era ávido por saber. Curioso, tinha o brilho do olhar daqueles jovens que nasceram para fazer história. Ele não acreditava como alguém poderia ter vivido tanto tempo e me pediu para que eu lhe ensinasse. Dizia ele: “se eu viver como o senhor, poderei descobrir muitas coisas pelo mundo todo. Posso ser uma voz que transmite novas mensagens a todos. Vovô me disse que o senhor pode me ensinar.

Dei algumas dicas a ele, como se fosse possível entender o que fazer. Àquela altura eu já estava acostumado a explicar minha idade, ainda que não houvesse racional sobre isso. Até hoje não compreendo exatamente, imagine em meados do século XIX. Lembro-me que disse a ele: “Faça o possível para ouvir melhor. Quem ouve, aprende. Use a experiência alheia. A grande vantagem de quem sabe ouvir é absorver muito mais conhecimento que a média. Nunca esqueça!

Um ano depois, fui procurado pelo garoto novamente. Naquele momento aos 14 anos, Alexander Graham Bell havia seguido meus conselhos ao pé da letra. Ele e seus irmãos construíram uma reprodução do aparelho fonador. Numa caveira, montaram um tubo, com “cordas vocálicas”, palato, língua, dentes e lábios. Com um fole, sopravam a traqueia e a caveira balbuciava “ma-ma”, imitando uma criança. Se compreendessem como “construir a fala”, poderiam garantir que o processo de audição estivesse sempre preservado. Sempre admirei o idealismo da juventude!

Quando vi a empolgação, ofereci a ele um plano de estudos de física para acompanhar seus trabalhos na Weston House, onde virou professor aos 16 anos. Eu havia conquistado mais que sua admiração, seu profundo respeito. Quando viu sua mãe perder a audição, entrou em desespero. Acreditava desde que nos conhecemos, que o saber e a sanidade dependiam da audição. Quando alguém o desrespeitava ele repetia incessantemente uma frase que acabou virando um dito popular no mundo todo: “É melhor ouvir isso do que ser surdo!

Alguns anos depois, tenho orgulho de ter ajudado a família a migrar para a América e evoluir em seus estudos em acústica. Dado o tempo que passou comigo, Graham acabou aprendendo mais algumas coisas que também soube aplicar com eficiência. Através de seu trabalho, Graham Bell conheceu pessoas influentes. Gardiner Greene Hubbard, um advogado e empresário, cuja filha, Mabel, tinha ficado surda aos quatro anos, em consequência de uma escarlatina foi uma destas pessoas. Ela já era adolescente quando Graham Bell começou a treiná-la para falar, com bons resultados. Em 1875, Bell e Mabel ficaram noivos. Garoto já sabia o que era bom na vida!

Ele teve oportunidade de ver a invenção do professor alemão Philip Reis, que havia juntado dois pedacinhos de madeira e aço, conseguindo construir um estranho aparelho capaz de transmitir sons, batizado como telefone. Ao vê-lo, Graham achou que a eletricidade poderia aperfeiçoá-lo e teve a ideia de construir um aparelho capaz de transmitir notas musicais à distância usando eletricidade. Durante os anos de 1873 e 1874 ele fez experimentos.

Neste momento recebi uma carta dele reportando orgulhosamente seus progressos e pedindo uma ajuda.

Respeitável Sr. Caplet,

Meus estudos estão se provando viáveis. Acho que posso realmente transmitir um conjunto de notas musicais via eletricidade. Se eu conseguir, será possível também transmitir a voz humana. Gostaria muito que o senhor estivesse aqui. Realmente fazer com que as pessoas possam ser ouvidas vai engrandecer a sabedoria de todos.

Suplico seu apoio, envergonhado. Com mais algumas poucas centenas de dólares eu confio que conseguirei os equipamentos necessários para concluir o processo e patentear minha invenção. Nossa, aliás.

Estou muito perto. Conto com o senhor, meu segundo pai.

Seu eternamente grato amigo,

A. Graham Bell

Acordei com ele que faria todo o financiamento do projeto, mas sem aparecer. Sempre fui aquilo que os americanos chamam de “low profile“. Holofote não é comigo. Deixei que o pai de Mabel e mais um amigo, aproveitassem a exposição e fama pelo talento do jovem.

Em 10 de março de 1876, Bell experimentava um modelo de telefone no sótão. Seu assistente, Watson, encontrava-se em outro aposento. Entre os dois cômodos, estava estendida uma conexão telefônica que não conseguira transmitir mensagens inteligíveis. Enquanto Bell estava trabalhando, derrubou uma pilha e os ácidos corrosivos caíram sobre a mesa e em suas roupas. Bell gritou: “Sr. Watson, venha cá, preciso do senhor!” Watson ouviu a mensagem pelo telefone, e foi até ele. Bell estava com 29 anos e tinha, afinal, inventado o telefone.

Uma coisa que pouca gente sabe, é que eu apresentei Graham ao Imperador brasileiro Dom Pedro II. Eu havia começado minha jornada pela América do Sul e já imaginava que o Brasil seria o meu futuro. Ao entender o aparelho, D. Pedro disse: “Grande Deus, isto fala!!!“. Naquele mesmo momento fechamos dois negócios. A primeira encomenda de aparelhos para o Brasil e a formação do primeiro investimento em telecomunicações da hoje chamada América Latina.

A CapletBell foi a primeira companhia privada a atuar ao lado da família Real Portugesa. Atuando como subsidiária de Bell Telephone Company, fomos a primeira verdadeira multinacional do setor. Com muita sorte e senso de timing, em 1887, após ouvir por acaso uma reunião de marechais em uma sacristia abandonada no Rio de Janeiro, decidi que venderia todos os direitos de nossa companhia para os militares brasileiros. Não tivéssemos feito, teríamos perdido os direitos em 1889, com a expulsão da Coroa e a Proclamação da República. Um tal de Deodoro disse aos mais chegados que o Brasil seria uma “Pátria Democrática” e que aquela companhia seria motivo de orgulho nacional. Um super-tele brasileira. Fez tudo errado, misturou interesses e foi obrigado e entregar todos os ativos a preços vis para produtores rurais. Aliás, foi desta trágica gestão pública que nasceu a expressão “vender a preço de banana”, por conta da origem dos fazendeiros que adquiriram o que ainda sobrava da empresa.

No que diz respeito ao nosso investimento, com 1466% de valorização do dinheiro, naveguei para os EUA onde dividi os lucros com Graham, Mabel e seus familiares.

Com este investimento de valor, a família Bell pode financiar a Guerra das Patentes criada nas cortes americanas e ainda fundar seu instituto que até os dias de hoje atende deficientes auditivos por todos os cantos dos Estados Unidos da América.

Em 1899, após algumas fusões e confusões, fundou-se a American Telephone and Telegraph Company, que muitos de vocês conhecem por AT&T. Eu diria que ainda sou acionista da companhia até hoje. Mas não seria verdade. As ações não são minhas, são de um trust. Eu só sou o beneficiário. Vocês entendem como é isso, certo?

Enfim, quanto ao Brasil… parece que o país aprendeu certinho como quebrar uma grande companhia telefônica. Agora resta correr atrás de plantadores de banana do Oriente Médio para tentar salvar qualquer coisa. A tal da Oi parece que cruzou o Cabo da Boa Esperança de vez… aliás, uma grande ironia este local para eles neste momento. A trajetória da companhia foi uma sequencia infinita de infrações aos manuais de boas práticas e quase uma ofensa ao protagonista do meu relato de hoje.

Até a próxima semana. Me proibiram de prometer o dia.