Tuesday Caplet em: e o mundo não acabou!

É a segunda vez no ano que os investidores falam em fim do mundo, colapso. Culpa do Banco Central, da China, do Obama e agora... da Rainha de volta.

Perto de 1710, eu já não era mais um menino. Seguindo a tradição da família, eu passava uns dias de verão em Southampton. Naquele 07 de julho, eu descia uma das ruas próximas ao porto quando a vi sentada. Jamais havia visto aura tão brilhante, cristalina. Ela vibrava. Foi impossível não parar para entender o que aquela dama fazia ali, sozinha. “Aguardo o entardecer” – ela afirmou. “Cada vez que vejo o sol se pôr, lembro que amanhã tudo começa novamente, de alguma maneira, diferente de hoje. Aqueles que deixaram o porto hoje, terão de encarar os mares amanhã. Sem ter idéia das tempestades.

Por mais simples que pudesse parecer, esta idéia era capaz de resumir grande parte dos momentos da vida. Decisões de relacionamento, amizades, trabalho e principalmente de investimentos. Incrível como meu gatilho de conexão e atração sempre foi o cérebro, bem antes da beleza crua! E quando as coisas combinam então… Convidei-a para um jantar no melhor lugar da cidade. A Bull Market Tavern. Além de uma comida incomparável, tinha as mais diversas opções de bebidas e pasmem, música ao vivo! Dançar um pouco com ela já seria suficiente. O beijo que o destino me reservou ao final da noite fez daquela, a melhor lua nova da minha vida (até então).

Eu ia tanto ali, que já era claro para mim o tipo de público frequentador. Os chamados donos do dinheiro, que naturalmente atraíam damas das mais nobres, ou não. Uns dias antes, eu havia conhecido um dos investidores da nova geração de navegadores. Ele lutava contra o monopólio do governo. Ao ouvir minhas idéias sobre um Estado menor, me contratou por 120 Libras Esterlinas (algo como US$ 77.000 a dinheiro de hoje) para desenhar um modelo de companhia que pudesse operar como concorrente do governo.

Ao estudar a necessidade de investimento, as barreiras, as variáveis e tudo o que era importante para o maior obstáculo, lembrei de um dos meus gurus de infância que dizia: “sabedoria é entender como pode unir-se àquele que não podes vencer“. Eu acompanhava de perto as dificuldades de um Estado que via sua dívida crescer rapidamente e muito pouco conseguia investir.

Fiz a ele uma proposta de associação com a Coroa. Se eu conseguisse convencer os gestores públicos a quebrar a exclusividade em troca de investimento, eu abriria mão das minhas 120 libras e seria sócio da companhia. Ele não me quis de sócio. Cada um com suas escolhas. O fato é que montei ali uma das primeiras parcerias público-privadas do Reino Unido. As ações da South Sea Company eram negociadas e garantidas pelos títulos da dívida do governo. Muito pouco me envolvi após a constituição da empresa. Raríssimo caso de sorte nos negócios, ou como dizia minha avó, de traseiro virado para a lua! Com o monopólio das rotas para a América do Sul, a South Sea gastou irresponsavelmente seu dinheiro, fazendo prevalecer o interesse do seu fundador sobre o do projeto. Poucos anos depois, viu seu valor colapsar, fazendo muita gente com grandes volumes de dinheiro perder tudo, naquela que ficou conhecida como a “South Sea Bubble”. Mais sorte que juízo! Uma das minhas mais marcantes experiências com ilusões de investimento, depois das tulipas é claro!

Imagem de "South Sea Bubble" de Edward Ward da Tate Gallery
Imagem de “South Sea Bubble” de Edward Ward da Tate Gallery

Com o dinheiro daquele projeto, investi em uma pequena embarcação que guiava as Caravelas através do nevoeiro. Do alto-mar até as docas e vice-versa. Era tudo muito prático. Com o troco, comprei duas charretes que levavam alguns dos marinheiros até a região dos mercados da cidade. Meu primeiro investimento em logística multi-modal. Teria feito uma fortuna, não tivesse deixado tudo ali em Southampton para aquela dama. O inevitável efeito do encantamento e da paixão. Em um dos meus bilhetes a ela eu afirmei: “Tudo o que aqui criei é teu. Tudo foi por ti. Contigo sinto-me leve, como se pudesse transformar-me em um ser que flutua por sobre os mortais. Incrível a leveza.” Mais de dois séculos depois, após adquirir um destes bilhetes originais em um leilão da Sotheby’s, Milan Kundera publicou “A insustentável leveza do ser”. Nunca tive a chance de encontrá-lo para contar que eu ainda vivia. Quem sabe ainda tenho tempo.

Já em 1879, a França estava em ebulição. Os mercados sentiam-se maduros. Prontos para apostas. Participei de um comitê que reuniu-se onde hoje é a Place de La Défense, à época um lugar longe do centro de Paris, para discutir a tomada de capital do l’Union Générale. Fui voto dissonante. Por oito a um, venceu um modelo de captação que prometia resultados financeiros crescentes amparados por spreads cada vez maiores dado o tamanho da demanda por crédito em um país que apostava ser a nova potência mundial na chegada do século XX. Estava na cara que não ia longe. As ações do Banco saltaram de 500 francos até 3000, no auge. Com a aceleração dos mercados, as taxas de juros começaram a subir rapidamente e todos os cedentes de crédito passaram a exigir maiores juros sobre empréstimos. Os devedores começaram a não conseguir arcar com suas dívidas e a falta de garantias e liquidez fizeram com que rapidamente o modelo do banco, que era quase uma pirâmide, desabasse. Em menos de três anos chegou o “Crash de Paris” em 1882. Esta eu vi de longe, tomando um belo Bordeaux, que ganhei de presente do Presidente do Banco quando votei contra o projeto. Ironia do destino. O tempo ensina.

Tulipas, South Sea, Union Générale. Todos casos de expectativa mal gerenciada. Supervalorização de ativos. Projetos insustentáveis e ambiciosos que aproveitaram-se de informações mal interpretadas pela massa investidora, para dizer o mínimo. Shortear é coisa da modernidade do mercado. Quando a irracionalidade é gritante, a melhor aposta é contra! Destruir parece mais fácil do que construir.

E aí estamos aqui, em 2016. Já falei com Cameron, até chá com a Rainha eu tomei. Nem eles achavam que o Brexit seria tão violento para os mercados. É a segunda vez no ano que os investidores falam em fim do mundo, colapso. Culpa do Banco Central, da China, do Obama e agora… da Rainha de volta. Oh gente que gosta de uma tragédia. Juros negativos, ativos sem risco. Como assim? Para mim, tudo déjà vu. Como os gestores vão ganhar dinheiro sobre o dinheiro dos outros para pagar toda aquele volume de Chateaux Latour e viagens de Emirates para Dubai para tirar foto do Burj Al Arab para o Facebook? Confesso que não posso com tanta modernidade.

Enfim, os realmente ligados vão, na surdina, sem alarde, escolher os melhores ativos. E ali ficar. Quietos, aproveitando a catarse global para aumentar posições e esperando como manda a maturidade, o timing certo de sair e realizar. É isso mesmo. Não é o Juízo Final, nem a vinda do Messias (com M não B) do judaísmo. Ainda teremos que viver muito tempo aqui. E dá para ganhar muito dinheiro, com a informação correta, a frieza necessária e o timing correto. Posso garantir.

Quanto àqueles em pânico, deixo para Foucalt resumir: “A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.”

Sabe por que devemos temer ao diabo? Não porque é mau, mas porque é velho!

Sigam atentos e calmos, e até a próxima terça! TERÇA!