Tuesday Caplet em: Era uma vez na França

Oitenta anos passaram e o papel do Estado controlador, interventor e seus limites estão em discussão em todos os continentes. Uma crônica Caplet.

Semana passada, ao falar do ano novo chinês lembrei da viagem de Charles Darwin. Prometi que traria mais histórias dele. Passei a semana pensando em várias, mas resolvi dividir primeiro uma das mais curiosas.

Após o trabalho feito nos EUA em 1836, acabei recebendo algumas boas indicações, mas acima de tudo meu nome acabou sendo acompanhado pelo rótulo de “atacado”.  As missões que os economistas ou executivos normalmente não topavam eram as que mais me motivavam.

No ano seguinte, ainda devendo uma visita ao pupilo e me sentindo mais ainda em débito por receber relatos imensos de sua viagem no HMS Beagle e somente ter conseguido responder com duas ou três cartas resolvi voltar à Europa.

Era Maio de 1837 e eu soube no navio que Léon Blum, então Primeiro-Ministro francês estava reunindo um grupo de “pensadores controversos” para tentar criar um projeto de longo prazo na França que atendesse às suas expectativas de sociedade igualitária mas que sobrevivesse sob a ótica financeira. Imediatamente disse que se era para discutir mercado e sociedade, eu levaria comigo aquele jovem tão sagaz e ávido por dividir, por convencer, por literalmente viver!

Quando eu e Charles chegamos ao Jardim de Luxemburgo, onde as reuniões aconteceriam, fomos recebidos com toda a honraria que um convidado do Chefe de Governo merecia. O garoto era um tanto tímido e muito simples. Emprestei-lhe um traje um pouco mais adequado do que suas roupas habituais usadas durante a circunavegação.

Ao entrar fomos apresentados ao Maître Sinclair. Ele nos encaminhou à sala de conferências, onde os outros 3 participantes estavam, também recém-chegados. Na ordem, em sentido horário na enorme mesa redonda víamos um senhor meio calvo (Léon Blum), um outro senhor com bigode enorme e cara de poucos amigos. John Maynard Keynes era a base da esperança do Ministro para convencer o parlamento do caminho que julgava ideal. E por fim, um jovem, muito destoante e que provocou um sorrido imediato em Charles ao perceber que não era o único completamente fora de contexto em meio aos experientes senhores e a mim, à época com 377 anos. O garoto francês era recém-formado pela Escola Livre de Ciências Políticas e apaixonado por economia e as relações em sociedade. Muitos apostavam nele como um futuro líder nacional.

Assim que chegamos, ele se aproximou e disse: “Muito prazer Senhor Caplet. Um dos meus professores é fã de seu trabalho realizado para Andrew Jackson. Sou François Maurice Mitterrand.”

Sentamos os cinco e imediatamente foram oferecidos queijos, frutas, charutos e um belíssimo Chateau d’Yquem 1827. O melhor Bordeaux que já tomei.

Ao abrir a reunião, Monsieur Blum deixou claro que suas convicções socialistas deveriam ser respeitadas. Que entendia que o Estado deveria agir como agente controlador e balizador das relações de produção, riqueza e mercado. Foco na igualdade social e no pleno emprego. Olhou Keynes e disse: “Pleno emprego meu amigo. Esta teoria te trouxe aqui. Desde a Revolução Francesa não temos uma chance tão grande de mudar os rumos da nação”.

Keynes defendia a manutenção da demanda em equilíbrio com a capacidade produtiva da economia, de forma suficiente para garantir o pleno emprego, mas cuidando para que o excesso de demanda não causasse inflação. Quando abordava o mercado, John defendia o investimento de longo prazo e a não preocupação excessiva com a liquidez. Entendia que assim, o investidor estaria protegido daquelas variáveis difíceis de acertar, macroeconômicas e com uma quantidade muito complexa de fatores de influência.

O Primeiro-Ministro estava chegando ao final de seu primeiro mandato, mas fazia questão de deixar o caminho pavimentado para seu retorno, que de fato ocorreu cerca de um ano depois. Ele havia recém-criado a jornada de trabalho fixa, direito às férias pagas e aberto espaço para as mulheres em funções governamentais.

Darwin e Mitterrand proporcionaram cenas hilárias ao encarar embates característicos dos jovens idealistas já sob o efeito da farta oferta do incrível Chateau d’Yquem 1827. Em um determinado momento achei que Charles pularia a mesa, mas acalmei-o relembrando o quão interessante é o convívio com o contraditório. Ao final, John Keynes ofereceu à Darwin um período de “tutela acadêmica” mas o pupilo rejeitou com o resto da educação que ainda restava ao embriagado jovem alegando que dedicaria sua vida às relações em sociedade. “Vocês economistas são confusos demais” – sentenciou!

Confesso que levei um tempo para entender como ele pôde desperdiçar a chance, mas as razões de um jovem nem sempre, ou quase nunca, são compreensíveis a alguém com tanta estrada percorrida.

Oitenta anos passaram e o papel do Estado controlador, interventor e seus limites estão em discussão em todos os continentes. Há alguns anos, Joseph Stiglitz ganhou o Prêmio Nobel de Economia por sua criação “os fundamentos da teoria dos mercados com informações assimétricas”.  Ele defende uma explícita oposição à Escola de Chicago que prega a ortodoxia e o equilíbrio das contas públicas.

As discussões entre os modelos de Joaquim Levy e Nelson Barbosa me colocam, ao fechar os olhos, novamente naquela sala do Palácio dos Jardins de Luxemburgo. O tamanho dos subsídios, do aproveitamento do poder central, da intervenção além da regulação para garantir desenvolvimento e pleno emprego. Tudo isso em oposição a uma política austera e controlada, muito mais alinhada às premissas de livre mercado.

Provavelmente o modelo ideal, que só funcionaria em um país ideal, com todas as variáveis equilibradas, fosse um misto das duas doutrinas. Sem julgamento de mérito de proporção ou qual fatia usar ou desprezar de cada uma.

O fato é que tudo é realmente imprevisível. Menos de três anos depois daquela reunião na França, o mundo estava em Guerra. A Europa ocupada por exércitos e depois devastada. Todas as variáveis macroeconomicas previstas e por nós discutidas haviam virado pó. E após duas bombas atômicas e uma enxurrada de dinheiro vinda da América na forma do Plano Marshall, qualquer projeto pôde voltar a ser discutido.

Este é o ponto. Focar todas as discussões no macro significa aguardar a chegada do elefante e perder o exército de formigas carregadeiras que podem trazer a solução da construção do que precisamos. Mais ação e menos discussão.

Mais Amélia do que Keynes ou Friedman. Precisamos de economia doméstica.

Gastar menos do que recebemos. E suar, até calejar as mãos de tanto produzir. Aí sim poderemos pensar em distribuir o que temos. E quanto ao Estado, parar de fazer benevolência com a riqueza alheia e às custos do sofrimento de outros.

Se fizermos isso… será mais do que justo descansar com charutos, frutas, queijos e qualquer novo Bordeaux.

Vive le Brésil!

Até a próxima-terça!