Tuesday Caplet em: Liberté et Fraternité. L’égalité vient après

Este material foi publicado apenas duas semanas antes da recepção do processo de impedimento da ex-presidente Dilma pelo ex-presidente da Câmara.

Duas coisas são marcantes em minha memória sobre a parte final do século XVIII: o funcionamento do sistema de envio de cartas na Europa e o surgimento de grandes talentos da juventude.

Eu havia recém comemorado meus 328 anos em Edinburgo. Saudade da minha terra! Ainda estava lá perto da casa onde nasci quando o mensageiro chegou. Uma carta daquelas típicas dos filmes de época foi desenrolada com a seguinte mensagem:

Caríssimo Monsieur Caplet,

Recebestes o maior dos reconhecimentos de alguns dos nossos líderes mais antigos. A França precisa neste momento dos melhores e mais íntegros talentos da política e da economia. Convido-o a fazer história. Montesquieu e John Locke nos guiaram até aqui. Para o próximo e definitivo passo, o senhor é a peça que falta.

O próprio mensageiro está instruído a trazê-lo para Marseille, onde conhecerás todo o plano.

Estou convicto que um nobre com tamanha vivência não dará às costas à Nação Francesa.

Meus mais sinceros votos de admiração e respeito,

Maximilien François Marie Isidore de Robespierre

Foi impossível negar aquele chamado. A força dos movimentos populares da França já era conhecida por toda a Europa e mesmo os mais tradicionais britânicos reconheciam a relevância dos movimentos. Resolvi seguir imediatamente. Aos 328 anos estava em meu sexto casamento. Triste a sina que me perseguia. Não compreendia a razão. Havia ficado viúvo por cinco vezes. Minha sexta esposa parecia que havia saído das peças “A Megera Domada” ou “Othello”, do garoto de Stratford, William Shakespeare, mas ela é história para outro dia. Despedi-me e parti.

Quando cheguei ao destino fui recebido pessoalmente por um garoto, que adorava ser chamado de Isidore, por uma lembrança de seu avô. Robespierre era ansioso e ao mesmo tempo convicto. Filho de burgueses, havia perdido a mãe e sido deixado pelo pai. Tido como incorruptível era um verdadeiro defensor do povo. Naquele momento recém-formado advogado, tinha certeza que mudaria o mundo. Mais um destes no meu caminho.

Eles entendiam que a monarquia de Luis XVI deveria ser destituída e os princípios de “liberdade e fraternidade” seriam os norteadores da nova sociedade francesa. Meu primeiro comentário a ele foi sobre as razões da deposição do governo. Lembro-me de ter falado a ele: “se uma realidade tão desigual inflama tanto a população, que tal incluir igualdade nos princípios“. Seus olhos brilharam! – “Perfeito Monsieur Caplet, eu sabia que era do senhor que precisávamos. Liberdade, Igualdade e Fraternidade“.

Naquele momento, a França concentrava cerca de metade de todo o volume financeiro negociado na Europa. Era a Bolsa de Valores mais importante do continente, mas o desequilíbrio das contas do Estado, elevação dos impostos e concentração de renda estavam atingindo níveis insustentáveis. Havia rumores que De Brienne, então Ministro das Finanças levaria à aprovação da Assembléia de Notáveis uma nova maneira de taxar o clero e a burguesia, visando reequilibrar um pouco as contas.

Em uma alusão ao local dos encontros entre políticos da época e a equipe de finanças e economia de Luis XVI, que era às margens do Sena com vista direta para o rio, chamaram as idéias de “As pontes para o futuro”. Os notáveis não aprovaram. Não houve consenso.

Isidore não suportava mais a espera. Ainda tinha somente o receio de como controlar as massas durante a sua desejada revolução. Lembrei-o de Sun Tzu. “Comandar muitos é o mesmo que comandar poucos. Tudo é uma questão de organização. Controlar muitos ou poucos é uma mesma e única coisa. É apenas uma questão de formação e sinalizações”.

O Estado precisava ser repensado. A França tinha um Estado pobre em um país rico. Robespierre sabia, lá no fundo, que a história de que tudo seria perfeito pós-revolução e deposição do governo, não seria exatamente daquele jeito. Algumas coisas demandam somente decisões, outras, processos.

Assim como não mudamos nossas vidas em suas verdades mais profundas do dia para a noite, uma sociedade política e economicamente complexa leva tempo para se redesenhar. Abraham Maslow só nasceria mais de um século depois, mas a história da Revolução Francesa foi por ele muito estudada ao desenhar sua pirâmide da hierarquia das necessidades. Enquanto a base pode seguir controlada com suas necessidades básicas satisfeitas, aqueles que lideram e que formam o topo da pirâmide, demandam atendimento de seus mais complexos e subjetivos desejos. Poder e status.

Repactuar um modelo de sociedade, encolher um Estado, promover real processo de redução das desigualdades e aceleração econômica exige medidas extremas, convicção, apoio massivo e resiliência. Robespierre havia conhecido Adam Smith e seu ideal exposto em A Riqueza das Nações. O jovem francês tinha certeza que era o indivíduo que ao buscar o melhor para si desencadearia um processo catalisador de melhorias em cadeia. “Não há o que Temer” ele afirmava aos seus liderados. Mas não era assim tão simples.

Quando vi que a guerra seria real e não somente ideológica, julguei que minha contribuição havia sido dada. Voltei à minha casa e a minha vida, de verdade.

Em 12 de julho (dia curioso) de 1789 começaram os motins em Paris. Dois dias depois caiu a Bastilha, depósito de armas e um dos grandes ícones do poder Real. Imunidades foram retiradas, direitos feudais revogados. Na outra ponta, o direito à greve e mobilização tendenciosa dos sindicatos foram revogados, sob  risco de pena de morte.

Aquele menino tornou-se um verdadeiro líder nacional. Como já disse, incorruptível. Liderou uma nação rumo à esperança. Mandou decapitar o Rei Luis (XVI). Mas mudar o mundo custa caro e faz inimizades. Acabou morto após assumir a Presidência da Convenção Nacional e mandar prender Danton, que defendia um modelo mais moderado de revolução. Ferido por um de seus desafetos, foi guilhotinado em 28 de julho de 1794.

Fez história como queria. Advogado, profundo conhecedor das leis, quis mudá-las em favor de um país melhor e mais justo. Não lhe importava o custo. O preço sempre vem. Foram somente 36 anos de Robespierre, mas de uma vida pulsante e eternizada pela luta!

A Revolução Francesa durou dez anos.

Há neste momento um país de outro continente, tão relevante para sua região quanto aquela França, que precisa de uma revolução. Sua Bolsa também é a maior da região e uma série de movimentos subestimam as dificuldades pós-queda da “monarquia”.

Hoje mais maduro, prestes a completar 556 anos e após ficar viúvo pela trigésima quarta vez, acho que é razoável compreender que muito tempo será necessário para a tal revolução completar seu ciclo. O futuro não está do outro lado da ponte, porque quando ele realmente chegar, nós a teremos cruzado e ele chamará “presente”.

“Triunfam aqueles que sabem quando lutar e quando esperar“. Sun Tzu

Até a próxima terça!