Tuesday Caplet em: nem tudo que reluz é ouro!

Locke, controle do Estado e Caplet. Qual a relação entre o filósofo e investimentos? Mais uma crônica de Tuesday Caplet para você ler!

Todo mundo tem um primo, ou melhor, um cunhado que acaba tomando seu tempo, seus recursos e tantas vezes muito mais. No meu caso o que era para ser o caos, acabou virando uma boa história… e na qual ganhei algum dinheiro também. Afinal, é para isso que uso aqui este espaço não é mesmo? Este pessoal da Eleven Financial até gosta das minhas histórias, mas no final do dia, não deve ser fácil para eles manter a base de assinantes mais qualificada no mercado financeiro brasileiro. Então vamos lá!

Recebo uma carta do meu Tio Andrew. Perto de 1675. Nesta época eu vivia em Stratford. Ir a Londres não era necessariamente difícil, mas àquela altura não era um programa que eu queria fazer. Este era o irmão mais novo do bisavô de meu bisavô, e tinha fama de preguiçoso na família. Ourives, seu único diferencial era ser notadamente reconhecido como honesto, o que nesse setor em pleno século XVII não era muito comum.

Quando cheguei lá, encontrei ele desacorçoado. Trabalhava como louco, com uma única assistente. Olhos grandes, escuros, cabelo ondulado. Linda e determinada, fazia a maior parte do trabalho. Apaixonada por borboletas, dizia serem os animais mais lindos da Terra. Nas horas vagas ainda cozinhava nas reuniões clandestinas da burguesia. Vi naquela determinação o melhor caminho para solução da vida, até aquele momento, dele! Eles armazenavam grande variedade de metais preciosos. Andrew era alto, vivia usando vermelho, afirmando que se qualquer peça caísse de suas mãos seria fácil encontrar. Mas guardava e pouco aproveitava.

Por mais de uma vez eu a vi entregando pequenos pedaços de papel com as iniciais dos depositantes e a quantidade entregue. Assim ela criou uma maneira de entender onde guardar e como deixar claro a todos o que era de quem. Perdido em seu olhar fiquei pensando em como eu poderia ajudar, sem me esquecer de passar a maior quantidade de tempo possível perto dela. Trabalhar, ajudar, comer bem e afagar os olhos e a alma. Não era uma má ideia.

Sugeri que transformássemos aqueles papéis em recibos, não transferíveis, sem os quais nem mesmo o depositário poderia resgatar seu ouro, ou qualquer outro metal. Não parecia suficiente. Virou um processo burocrático e que não agregava valor. Tio Andrew estava cada dia mais tenso. Eu me lembrei de quando sugeri, durante meu período na Germânia, que os certificados de transporte tivessem valor financeiro em portos de destino. Dividi com ela a idéia.

Junto criamos um documento que chamamos de PN (promissory note). O nome acabou pegando. Com ele, os direitos sobre os metais poderiam ser cedidos a terceiros, fracionados e até mesmo sacados em dinheiro. Mediante uma módica contribuição que afirmávamos ser diretamente usada na melhoria dos serviços. A quem duvidava dizíamos, “eu juro”! Daí veio o nome da diferença entre o valor apurado dos metais e o efetivamente sacado.

Lembram que desde pequeno eu imaginava um Estado menor né? Então. As moedas eram controladas e muitas vezes taxadas pela Monarquia, que fazia questão de controlar a riqueza. Ah, era gente demais querendo saber de tudo. Quando não era o Rei, era a Igreja. Eu e Ela criamos uma forma de fazer a riqueza circular. Era, digamos, um certificado de dívida. Mas era a dívida do ourives. Ali criamos outro nome que acabou pegando, mas sei lá como foi parar onde hoje é usado. Caplet Associates Goldsmith Resources – CAGR. Somente emitíamos as notas promissórias com a retenção de algumas moedas como garantia. Era o começo do colateral.

O negócio cresceu rápido demais. Com o crescimento, vieram os charlatões. Aqueles que prometiam que duas moedas de ouro virariam um navio mercante cheio. Vendiam notas promissórias de terceiros como se fossem suas e sempre alegando uma condição única. Tio Andrew a esta altura já estava rico! Eu e Ela apaixonados. Bem remunerados. Missão cumprida.

Dali, resolvemos sair e manter nossa saga de empreendimentos conjuntos. A receita era infalível. Foi como se tivéssemos levado a vida toda para encontrar um ao outro. Eu com 215 anos e ela com 37. Mas o que importava? Tínhamos um projeto de vida conjunto.

Antes que pudéssemos sequer estabelecer residência em Edimburgo, onde combinamos de começar nossa vida, fomos procurados por um filósofo inglês chamado John Locke. Ele havia escutado histórias do casal que “revolucionara” as operações dos ourives. Palavras dele, não minhas! Locke era contra a Doutrina das Idéias Inatas e imaginava uma maneira mais moderna de tratar o indivíduo e suas questões mais profundas.

Locke sabia que eu era contra o controle do Estado e tinha a mente aberta a novas ideias. Nascia neste momento o Iluminismo, buscando vencer as “trevas” – e eles precisavam de cabeças pensantes e braços dispostos a viver o inusitado, criar valor e defender seus princípios. Era tudo que Eu e Ela queríamos. O último dos trabalhos Dela foi a base do que anos depois John chamou de “Primeiro Tratado sobre o Governo Civil”. A política era coisa humana, ela dizia. “Esqueçam a divindade. Política e tentação caminham lado a lado. Isto é humano. Pouco importa como chega à sua porta um ou outro. A única certeza é que vão chegar. Sua decisão será como aceitar isso e quais recursos alocar em cada uma das frentes!”

De resto? Viver e construir. Iluminados ou não.

Até a próxima terça!