Tuesday Caplet em: O Desafio da Revolução Industrial para Barbosa

A história é cíclica. Curiosamente, 250 anos depois estou novamente vivendo em um país em momento de Revolução Industrial.

A segunda metade do século XVIII foi particularmente tumultuada. Eu vinha amadurecendo meus modelos e estudos sobre desenvolvimento e criação de valor. Cheguei para morar onde poucos anos depois foi colocado o Arco de Mármore (Marble Arch) criado por John Nash.

Muitos acadêmicos e intelectuais vagavam pela região que servia como entrada para o acesso ao Palácio de Buckingham. Discutíamos muito o novo modelo de estruturação da manufatura. A Inglaterra mudava drasticamente sua característica, trocando processos artesanais por maquinários, investindo em novas técnicas e inclusive trocando os então apreciados biocombustíveis pelo carvão.

Na verdade foi um processo gradual e de transformação dos fundamentos econômicos e sociais. Houve uma grande mudança na classe trabalhadora. O aparecimento das fábricas centralizou o comando nos “patrões”, detentores do capital e por consequência, dos lucros. Aqui nasceram alguns dos primeiros movimentos de trabalhadores que por analogia assemelham-se ao sindicalismo de hoje em dia!

Curiosamente, historiadores dizem sempre que os patrões ficaram com os lucros, sem jamais observar que assumiram os riscos. A Coroa passou a arrecadar mais impostos e a geração de riqueza regional criou uma das maiores, se não a maior, mudança de realidade sócio-econômica da história.

Estudamos muito, discutimos. Eu fui convidado a participar de um grupo de conselheiros que buscava reequilibrar as relações, visando definir um modelo consistente de projeto de longo prazo que transformasse a distribuição de renda e riqueza sem sobrecarregar o Estado.

Reinado de Hannover teve com quatro “Georges” sucessivos o controle do país e dos seus recursos, sucedendo a Monarquia dos Stuart. A dinastia dos Hannover saiu do poder em 1837 com a morte de William IV.

O Reino Unido foi pioneiro na Revolução Industrial por conta da adoção da política econômica liberal. Foi a forma encontrada para desmontar o modelo de cartelização e controle ilegal de oferta. A abertura econômica, desde o início do século XVIII com acordos bilaterais, permitiram colocar os produtos fabricados pela “nova indústria inglesa” no mercado português por exemplo, via Tratado de Methuen.

Lembro-me com carinho das horas que eu e I.I. (apelido que usávamos para a alcunha “Intrepid Intelectual”, usada nos pubs por Adam Smith) discutíamos demais a necessidade de equilíbrio entre o público e o privado. O Direito e a Propriedade. O risco e o lucro. I.I. era um defensor da “virtude do egoísmo”. Acreditava piamente que ao lutar pelo seu próprio benefício, o homem faria um bem consequente para a sociedade. Travamos árduas batalhas de argumentos. Tomávamos muito Gim, ainda produzido sem nenhum controle, em destilarias de fundo de quintal e várias vezes combatida por ser tratada como “droga”. Não era fácil encontrar. Nem curar a ressaca. Engov é uma dádiva do século XX.

A história é cíclica. Curiosamente, 250 anos depois estou novamente vivendo em um país em momento de Revolução Industrial. Nos últimos dias, houve uma formal mudança de comando na economia brasileira com a saída de um ministro adepto ao modelo do liberalismo e da economia de mercado, com características ortodoxas por um desenvolvimentista, que no bastidor já ditava boa parte das regras da condução.

Eu gostaria tanto de ver Barbosa contrariar as expectativas do mercado. Gostaria de vê-lo revolucionar a indústria brasileira. Modernizar, desonerar investimentos, acreditando no crescimento de arrecadação por recuperação do PIB, da geração de riqueza.

Ele tem uma oportunidade histórica já que não tem sobre si nenhuma expectativa positiva. Um dos meus grandes pares ao longo da vida profissional, ainda vivo, sempre diz que definir expectativa é a chave para o sucesso. O novo Ministro da Fazenda sem querer, deixou o caminho pavimentado para seu sucesso. Qualquer novidade positiva será percebida quase que euforicamente pelo mercado, após o período da incredulidade.

Enxugar o Estado. Reduzir seu papel. Redistribuir os lucros e a riqueza, não o crédito. Incentivar a recuperação não o arrocho. Se não for cortando na carne unilateralmente, que seja dividindo a conta verdadeiramente com aqueles que se beneficiam pela aceleração econômica. Aqui não há desindustrialização porque ainda não houve a verdadeira Revolução Industrial.

O Brasil ainda é um país de muita indústria primária e pouca tecnologia ou alto nível de beneficiamento e produção de bens com alto valor agregado. Historicamente dependente do Estado, os “patrões” podem ter que aprender a voar sozinhos. Lutando pelos seus interesses, pelo seu lucro, mas deixando o eco do desenvolvimento pela sociedade. Adam Smith pode ser o grande amigo de Barbosa e do país. Mandei a ele um email hoje, me pondo à disposição para contar tudo o que ouvi do “Intelectual Intrépido” e vi a Coroa Inglesa fazer lá pelas bandas de 1780.

Se vai responder eu nem sei. Mas ele tem um outro apoio que a Inglaterra não tinha. O mercado de capitais. Saber usar estes recursos e acessos, pode encurtar substancialmente o caminho da recuperação e criar a ele um lugar na história. Do lado vencedor.

Se lá sempre pedem para que Deus salve a Rainha, aqui dizem que Deus é brasileiro,. Sem perder o foco, esta não é uma conta do criador, mas de suas criaturas.

Crie Nelson. Até a Rainha reza por você.

Até a próxima terça!!!