Tuesday Caplet em: Os sete pecados capitais – Capítulo 2: Avareza

Avareza. Também chamada de ganância, é o apego excessivo e descontrolado aos bens materiais e ao dinheiro. Há avareza nos investimentos. Descubra aqui.

Edinburgo (minha terra natal), 08 de abril de 1560.

Meu aniversário de 100 anos foi um dos momentos mais marcantes da minha vida. Ainda era difícil compreender as razões pelas quais o tempo parecia não me afetar. Como vocês sabem, estudei desde muito cedo as coisas que acabaram por formar minhas convicções mais profundas na vida.

Naquele momento eu era professor convidado de filosofia e teologia. Esta última cadeira fruto da minha imersão em busca da compreensão do que me fazia diferente. Nunca tive o que atualmente chamam de “corpo fechado”. Sofri, fiquei doente, tive febre, sangrei. Tive dor de amor e alegria de brilhar os olhos e fazer o coração disparar. Fui humano em excesso desde sempre. É minha natureza, meu DNA. Mas como explicar alcançar um século de vida quando a expectativa média de vida na Escócia, mesmo dentre os mais nobres, era próxima a 45 anos?

A festa surpresa foi organizada por um de meus grandes amigos, Archibald Napier. Mais de cinquenta alunos, professores e convidados me esperavam com um banquete digno da alta nobreza. Archie era rico e com muito acesso. Tinha por mim um respeito incrível. Sabia da reciprocidade do sentimento. Levou consigo um garotinho de 10 anos. Gênio!!!! John Napier era filho de Archie e já tinha pulado todas as etapas do aprendizado que poderia se imaginar.

Confesso que de todas as pessoas presentes, aquele menino era, certamente o mais brilhante. Ouvi-lo dizer que a construção do celeiro da fazenda da família precisava ser refeita porque 146 das 4998 pedras do muro lateral de contenção pareciam assimétricas e isso criava uma chance importante de desabamento foi muito além do razoável.

Trabalhei por dois anos junto aos nobres reitores da Universidade de Saint Andrews tentando encontrar uma forma de explorar (no bom sentido) aquela genialidade. Ao final de 1562, consegui autorização do Duque de Edinburgo para receber John Napier como aluno oficial, sob minha tutela. Minha missão com ele era extrair todo o raciocínio lógico, sem deixá-lo esquecer que algo maior dá sentido a tudo na vida.

Sinto até hoje um grande orgulho ao ver o trabalho daquele menino reconhecido. Nem tanto pelo seu paper de teologia, uma das grandes obras eclesiásticas da Escócia, mas pelo legado matemático. Já grande de alma e maduro, Johnny formulou o que hoje é conhecido como “logaritmo neperiano”. O mais curioso, e que pouca gente sabe, é que todo o racional nasceu da sua inquietude por ajudar os astrônomos em seus cálculos, dada sua obsessão (da qual tive certa culpa) pela explicação dos céus, como se ali fosse encontrar a verdadeira paz.

Durante minha imersão na condução do garoto, passava horas e mais horas nas áreas externas da Universidade, aproveitando o sol ainda sob o vento gelado de Saint Andrews. Um belo dia, após muito trabalho, fui convidado a participar de um jantar. Ali discutimos muito teologia, matemática e a essência humana.

Eu passei um bom período após o primeiro século de vida, até entender o que realmente me levaria a acreditar no longo prazo, quando minha percepção dos prazos alcançava o ápice da confusão.

Ao sair daquele jantar, fomos chamados, eu e Marie, uma das minhas mais brilhantes companheiras de trabalho, a passar no Castelo de Carleen. A dama que nos recebeu era mais que uma artista. Esguia, morena com o perfeito equilíbrio entre as formas do rosto e do corpo. Vestia um traje escuro que criava uma harmoniosa visão do todo. Ela era famosa por seus trabalhos em alguns dos castelos mais incríveis da Escócia, da Inglaterra e da França. Nos meus cinco séculos de vida, poucas vezes vi alguém equilibrar tanto o racional construtivo e daquilo que hoje chamam de design, com o espírito e a alma de cada ambiente.

Durante todos os primeiros momentos, só conseguia agradecer à Marie por me colocar ali. Meus investimentos naquele momento estavam todos voltados às propriedades e no aproveitamento dos grandes generais da armada britânica que eram recompensados com riquezas desproporcionais pelas batalhas em defesa do Reino. Minha atual condição, aos 556 anos, de trazer luz e suavidade à descrição não me exime da convicção de ter sido um importante especulador do mercado imobiliário, se é que ele existia à época.

Desde o primeiro contato tive convicção que ao lado de Carleen, faríamos a combinação perfeita. Minha vida, minhas relações e meus recursos, somados ao brilhantismo, à dinâmica, adaptabilidade que ela já comprovara ao longo de sua trajetória, transformariam nossa união em algo imbatível. Viajei longe. Lembro-me de ter perdido alguns materiais que carregava comigo naquela noite em algum lugar do mundo de Carleen. Foi como se eu deixasse um pedaço de mim por lá, pensando que poderia voltar.

A maneira como ela combinava a classe com as ferramentas de trabalho, transformava seus trabalhos em verdadeiras obras únicas, entregando um valor incomparável. Ela vinha sofrendo um bocado com um grupo de falsos nobres, céticos e materialistas. Quando seus trabalhos entregavam alma e unicidade, eles viam desperdício. Quando o brilho dos olhos escuros e incrivelmente profundos ofuscava a limitação daqueles que a combatiam, ficava evidente dificuldade daqueles homens em reconhecer a grandeza daquela mulher.

Se eu pudesse tê-la ao meu lado. Os guerreiros enxergariam além do horizonte. Pagariam pela combinação entre as terras que meus recursos compravam e a alma que Carleen conferia às propriedades. Aqueles que arriscavam a vida pela causa compreenderiam a grandeza do valor de um lar.

Aos que lutavam por uma oferta “mais barata” de moradias, casas, terras e castelos, restava depreciar tudo o que fazia sentido e criava valor. Bom, vocês bem sabem o quanto investimento de valor me importa. Quando combinado com Ela, faltam-me palavras para explicar.

Vivemos um período difícil. Vivíamos longe um do outro, em uma época em que por mais que as locomoções parecessem mais simples, nossas obrigações pareciam nos manter distantes. Decidi apostar o que eu precisasse para ajudá-la a vencer aqueles que só faziam depreciar. Apostei minhas fichas no mais profundo e verdadeiro conhecimento das infinitas possibilidades daquela relação.

Um dia, um dos meus maiores amigos me disse que eu nunca consegui me prender às questões “mundanas”. Curioso. Lembram do Piddochio? Tenho certeza que já falei dele. Uma mente brilhante. Carleen é uma das comprovações da afirmação dele, ainda que eu tenha refutado em aceitar isso por tanto tempo. No fim das contas, a luta para que o valor dela e dos nossos investimentos prevalecesse, me pôs a combater um dos mais graves (na minha leitura), pecados capitais.

Avareza. Também chamada de ganância, é o apego excessivo e descontrolado aos bens materiais e ao dinheiro. O avarento prefere os bens materiais ao convívio com o verdadeiro valor e propósito da vida. Neste sentido, o pecado da avareza conduz à idolatria. É considerado o pecado mais tolo, por se firmar somente em possibilidades.

Criamos muita coisa juntos. Construímos, transformamos e vendemos. Se especulei, não enganei. O valor que ela trouxe aos meus investimentos e à minha vida, não há preço que pague. Por falar em preço, os guerreiros e os verdadeiros nobres entregavam sem hesitação, grandes somas pelos lares por nós construídos e concebidos.

Nosso legado foi deixado em homenagem àquele que nos uniu, mesmo sem querer. Depositamos naquele que, desde meados no século XIX, foi reconhecido como o Royal Bank of Scotland, uma quantidade de recursos com uma única finalidade. Transformar a Merchiston Tower, onde nasceu John Napier, em uma escola que ensinasse os jovens a criar valor partir da técnica e da alma.

Merchiston Tower, 1562
Merchiston Tower, 1562

Quase quatrocentos anos depois, a propriedade foi salva da demolição e transformada a partir de um funding anônimo (nunca quisemos fazer alarde com isso) na Napier Technical College, hoje chamada de Napier University. Tudo pelas mãos de outro grande amigo, Lorde James Douglas Hamilton.

Atualmente, posso dizer que há pouco mais de meio século, esta escola forma alguns dos maiores profissionais que a Escócia já viu. Pessoas que investem na construção de valor a partir daquilo que mais importa na vida.

Todos, sem exceção, inspirados pelos olhos de Carleen. Um retrato dela pintado por Edgar Degas em 1867 ilumina a entrada principal da antiga Merchiston Tower. Se poucos sabem efetivamente quem é aquela mulher, todos saem de lá sabendo que as mesquinharias mundanas são limitadores, acima de tudo, da vida.

Não há razão em investir em algo que não se acredita. A convicção oriunda da grandeza e da maturidade trará resultados que o avarento jamais compreenderá. Este, limitará seu plano ao curto prazo. Alguns quinhões vão subverter a percepção de valor, mascarada pelo preço, que muitas vezes acaba por consumir a alma.” – assim Degas sentenciou a razão de retratar aquela que mesmo para ele, era só uma história.

Mas os grandes homens sempre sabem diferenciar preço de valor. Oportunidade, de oportunismo. Nunca esqueçam, ou pode acabar custando caro.

Até a próxima terça!