Tuesday Caplet em: Os sete pecados capitais – Capítulo 4: Luxúria

Voltando à série dos sete pecados capitais, tenho sucessivamente sido provocado pela sequência sistemática de movimentações deste universo econômico-financeiro-cyber-esotérico-psicótico-emocional a revisitar as raízes de tudo. Ainda é muito difícil para mim, aos 558 anos, compreender e lidar com a velocidade das coisas. Há uma sequencia de encontros, desencontros e desafios, que só o que posso fazer é contar algumas histórias. Hoje é o dia da luxúria! (no sentido figurado)

Uma das histórias mais incríveis do século XIX foi no meio daquela confusão da Comuna de Paris. Eu tinha 410 anos, quando já poderia ser considerado por aqueles com mente menos abertas, como “velho”. Ainda ficava muito entre Stratford e Paris. Eu andava exausto. Recém-terminada toda aquela confusão no Reinado de Hannover, com quatro “Georges” sucessivos, tudo o que eu queria era um tempo de descanso. Quase um detox (ainda que uns dois séculos antes deste termo virar moda)! Eu vinha sendo um opositor ferrenho das ideias de dois meninos que tentavam subverter os modelos de desenvolvimento em prol de ideias que eu julgava pouco inteligentes. Fico imaginando aqueles dois com power points à disposição. Marx e Engels falavam que a Comuna de Paris era uma “ditadura do proletariado”.

A derrota na guerra Franco-Prussiana e a queda de Napoleão III (eu avisei a ele!) desestabilizaram os quatro cantos de Paris. Lembro-me Dela vindo em fuga da Alsácia-Lorena direto para a casa de Antoine Marcaux, um amigo a quem acolhi em Edimburgo alguns anos antes. Ele falava muito dela e da necessidade de mantê-la oculta, em absoluto anonimato. Era mais do que alguém especial, uma cabeça jovem, brilhante. Curiosa, provocava a cada movimento todos que a cercavam. Sorríamos ao vê-la centralizar as atenções enquanto buscava incessantemente a paz interior. Quase como um reencontro consigo mesma. Anaëlle era especial.

Faltavam quatro dias para o meu aniversário de 411 anos. O clima já estava tenso na cidade, mas Marcaux resolveu fazer uma pequena recepção para não deixar passar a data em branco. Afinal, não era toda hora que alguém chegava tão longe. Nunca gostei desta discussão. Sempre ouvi “a vida é curta” e nunca entendi porque as pessoas eram tão obcecadas pela cronologia em detrimento da intensidade. Enfim, Antoine e Marie, sua esposa, trouxeram aproximadamente vinte pessoas para, junto a nós e a Anaëlle, mais umas duas dezenas de garrafas de Bordeaux passarmos uma noite feliz em meio à tensão que cobria a cidade.

Gustave Coubert era um nome controverso. Presidia uma espécie de Federação dos Artistas da França e defendia o afastamento da burguesia. Foi dele a ideia de demolir a Igreja de Brea e de adotar a bandeira vermelha como símbolo da Unidade Federal da Humanidade. O plano parecia perfeito. A Assembleia Nacional Francesa havia se reunido em Bordéus (juro!) e nomeado Louis Thiers, amigo pessoal de Gustave, o primeiro Presidente da Terceira República Francesa. Redução de jornada de trabalho, legalização dos sindicatos, desapropriação de residências, eliminação do serviço militar obrigatório e controle da imprensa estavam sendo implementados em grande velocidade. Coubert sabia de segredos importantes do mais alto escalão da Comuna, inclusive de Thiers. Mas tudo parecia seguro.

Já enebriado, assisti ao exato momento em que Gustave e Anaëlle se encontraram. Por mais que eu tenha absolutamente claro que ali começou a cair o projeto socialista francês, preciso dizer que entendo o rapaz. Os artistas viviam em uma espécie de sociedade alternativa. Supostos intelectuais, eram claramente discriminados (e discriminavam) pela aristocracia que controlava o país e ousaram desafiar Otto Von Bismarck. Os artistas queriam desesperadamente um espaço para viver um pouco do luxo, da abundância, além de sentir-se empoderados, fortes, relevantes. Gustave e Elle (como a chamávamos) ficaram por muito tempo bebendo e trocando histórias exatamente à minha frente. Eu contei a eles tudo sobre Adam Smith, meu pupilo “Intrépido Intelectual” e eles se divertiram muito. Ele contou da carta que havia escrito aos artistas dias antes. Aquele dia foi tão importante, que arrematei o “papiro” em um leilão mais de 60 anos depois. Transcrevo aqui um trecho:

As administrações anteriores que governaram a França quase destruíram a arte sob sua proteção, ao suprimir sua espontaneidade. Essa abordagem feudal, sustentada por um governo despótico e discricionário, não produziu nada além de arte aristocrática e teocrática, justamente o oposto das tendências modernas, de nossas necessidades, de nossa filosofia, e da revelação do homem manifestando sua individualidade e sua independência física e moral. Hoje, numa época em que a democracia deve reger todas as coisas, seria ilógico a arte, que conduz o mundo, ficar para trás na revolução que está ocorrendo agora na França. Para alcançar esse objetivo, discutiremos em uma assembléia de artistas os planos, projetos e idéias que nos serão submetidos, no intuito de realizar uma nova reorganização da arte e de seus interesses materiais.” Para mim aquilo tinha a cara de Marx e Engels.

Ella encantou Gustave de tal forma, que a sensualidade dela deixou-o cego, sem movimento. Como poderia alguém com tanta beleza trazer tamanha dose de intensidade, de cultura, de complexidade. A cada minuto, ela foi desconstruindo os argumentos da dupla de alemães que havia hipnotizado o artista, que era filho de familia rica vinda da agricultura, mas que resolveu “lutar contra o sistema”. A casa de Antoine era colada com o Chateau Gaillard, a poucos metros do Sena. Caminhando à luz da lua, tocaram suas mãos e sentiram que aquilo ali era muito mais do que um acaso. Sincronicidade. O universo conspirava para aquele momento tornar-se eterno. O artista completamente envolvido por Ella, contou cada pedaço da sua utopia. Como fariam, cada plano de ocupação, a aproximação com a ala marxista alemã e como, principalmente, financiariam o projeto. Era um projeto de longo prazo, mas cuja dimensão de risco não contava com um toque de paixão, lascívia e descontrole. Mas qual era a medida do risco às margens do Sena, ao lado d’Ella?

Anaëlle estava encantada, mas confusa. Oriunda da burguesia, jamais quis ir contra o “establishment”. O entourage a excitava, agradava. A sensação de poder era intensa, vívida. Achava que a igualdade era uma falácia. Ao ser perguntada por Coubert o que ela mais queria na vida ela respondeu: “Je ne veux pas de luxe ou de déchets, je veux que la santé en avoir l’orgasme à la fin“. Ouvi mais de um século depois, já no Brasil, alguém usar a frase daquela noite bárbara. “Não quero luxo, nem lixo, quero saúde para gozar no final“.

Algumas noites depois, foi selado o acordo entre o governo oficial, instalado em Versalhes e a Alemanha. Começou a semana sangrenta que derrubou a Comuna. Até hoje poucos conseguem afirmar com certeza, quanto tempo durou o breve projeto socialista. Mas não ao acaso, é atribuída à luxúria, a responsabilidade sobre a queda do comando do movimento. Subitamente as fontes de financiamento foram cortadas, um exército gigantesco composto por ex-prisioneiros franceses vindos da Alemanha estavam unidos e organizados, conhecendo antecipadamente cada passo preparado pelos operários e artistas.

Gustave Coubert foi preso e morreu seis anos depois exilado na Suiça, em La Tour-de-Peilz, sem nunca mais ter visto Anaëlle. Sua última carta deixou mais do que claro a aresta que derrubou um projeto de país. “Uma combinação de olhar e mistério, de risco e excessos, de sonho e desafio, tornou-se sob as estrelas com sabor de Bordeaux e um perfume único a razão maior da sua vida. Vivi por aquela noite e nasceria de volta se soubesse com certeza que aqueles momentos voltariam, por mais um momento daquele olhar“.

Ao contar esta história preciso citar Bill, meu grande amigo…

Alguns elevam-se pelo pecado, outros caem pela virtude!” – William Shakespeare