Tuesday Caplet em: Sujeira custa caro

Uma sociedade 50/50 entre a gigante brasileira Vale S.A. e a BHP Billiton Brasil Ltda será responsabilizada, entenda o caso da Mariana nos investimentos.

08 de Março de 2010, Thistle Marble Arch Hotel em Londres.

Tuesday Caplet reuniu uma turma de 186 estudantes da London School of Economics para falar sobre investimentos de longo prazo, mitigação de risco e as principais companhias britânicas na LSE (London Stock Exchange).

A primeira análise foi sobre Barclays. O preço das ações no fechamento de 01/03/2010 havia sido GBP 332,83. Listado em Londres e Nova York, o banco vinha consolidando sua posição como player global nas suas principais áreas. Varejo, cartões de crédito, corporate bank e gestão de patrimônio. Reportara lucro antes dos impostos 92% superior ao ano de 2008, alcançando quase GBP 12 bilhões. Parecia que o susto havia passado pós-crash. Sinalizava como uma potência a receber atenção. E investimentos.

A segunda foi British American Tobacco. Cotação de 01/03/2010 era GBP 2271,50. Outro pulsante player inglês, reportara crescimento de lucro por ação de 19% 2009/08, +19% dividendos por ação e Lucro Operacional de GBP 4,101 bilhões. O quadro parecia inquestionável de oportunidade. O setor consolidava e resistia às mais diversas crises. BAT via sua participação de mercado na Ásia subir 24% e no Oriente Médio e África 41%. Onde houvesse espaço, alguém logo acenderia um cigarro!

Por fim, a preferida de Tuesday naquele momento. British Petroleum. A companhia reportava queda de resultados na casa de 23% e projetando pagamento nominal de dividendos 12% inferior à 2008. Acusava o golpe da retração econômica global. Segundo Tuesday, ali estava a grande chance. Uma mobilização global concentraria esforços para colocar de volta à carga um plano sólido de desenvolvimento. Os preços do petróleo não correspondiam à racionalidade entre oferta e demanda. Sentença de Caplet: Era o ativo certo.

A clareza com que afirmou aos estudantes o racional de comprar na baixa para vender na alta rendeu-lhe 4 minutos de aplausos ininterruptos ao final de sua palestra.

43 dias depois veio o impensável. A explosão da Plataforma Deep Horizon, administrada pela BP no Golfo do México deixou 11 mortos e causou o maior desastre ambiental da história dos EUA.  A inequívoca responsabilidade da companhia exploradora daquela atividade traria à tona uma discussão sobre o quão séria deve ser a punição e compensação financeira quando um evento combina catástrofe com a possibilidade de negligência.

Engatinhavam as discussões sobre as premissas de sustentabilidade corporativa. ESG (Environmental, Social and Governance) ainda mais parecia mais um apanhado de letrinhas nos relatório de divulgação de resultados. Dura lição. Tuesday Caplet e mais 162 dos 186 alunos compraram posições de LON: BP a um preço médio de GBP 634,00. Projetavam cerca de 36% de ROE para 24 meses, o que era absolutamente acima de qualquer investimento nas economias europeias.

5 milhões de barris de petróleo foram espalhados nas águas do Golfo do México. 87 dias de pânico entre os ambientalistas. Ninguém estava preparado para algo daquela dimensão. Muito menos o mercado financeiro, incluindo Tuesday e seus discípulos. Em 29/06/2010, pouco mais de 60 dias após, ainda durante a expansão do estrago, as ações atingiram GBP 302,90. O valor da companhia havia “derretido” 53%.

O argumento do inevitável, impensável e contornável não se aplicava. A dimensão do efeito sócio-ambiental, econômico e inclusive demográfico ia muito além do que balanços ou gráficos poderiam desenhar. British Petroleum NUNCA MAIS recuperou seu valor de mercado. Para termos uma visão clara, a variação dos papéis do dia do acidente até 09/11/2015 é a seguinte: BP -42%,  Exxon +18%.

O que se seguiu foi o chamado “Julgamento do Século”, com a condenação da companhia a um pagamento de aproximadamente US$ 20 bilhões. Mas a pior sentença já estava dada pelo mercado. Ninguém nunca mais confiou na BP como antes.

Mariana/MG, 05 de Novembro de 2015

O rompimento das barragens da mineradora Samarco, controlada pela Vale, causa o maior desastre ambiental da história do Brasil. Imediatamente a lama devastou os arredores da barragem, incluindo o sub-distrito de Bento Rodrigues. A inacreditável onda de lama ultrapassa os limites das cidades, do estado de Minas Gerais, segue Rio Doce a dentro até o Espírito Santo. Impossível calcular o estrago. Possível entender que a estratégia de ocultar o nome da Vale de todas as mídias, matérias e análises do ocorrido não deve durar muito.

Uma sociedade 50/50 entre a gigante brasileira Vale S.A. e a BHP Billiton Brasil Ltda será responsabilizada. Obviamente a diferença entre a justiça norte-americana e a brasileira virá à tona. Mas vai muito além disso. Oferecer cama, comida e cuidados básicos aos diretamente e localmente afetados em suas estruturas de moradia não é um traço da tempestade que pode passar pelas companhias.

A queda de 9% aproximadamente nas ações da Vale ($VALE5 PNA) desde o dia da tragédia está longe de ser o retrato da consequência patrimonial, ainda incalculável.

O Brasil é considerado um país “avançado” no que diz respeito às relações das empresas com a sustentabilidade corporativa. O ISE (índice de sustentabilidade empresarial) da Bovespa já completa 10 anos e a Vale é uma das suas ações. Petrobras já não é mais. A maneira como a mineradora vai suportar a pressão e conduzir as ações pós-tragédia dirá muito de seu futuro.

A Eleven acionou Tuesday Caplet para dar o seu parecer uma vez que duas de suas teses sobre o evento BP e o derretimento das ações estão entre os 20 títulos mais lidos da Biblioteca virtual da Universidade de Saint Andrews no Reino Unido.

Considerando a informação trazida à tona hoje, que a produção de minério de ferro naquela unidade havia subido 9,5 milhões de toneladas, reduzem de maneira importante as chances da não ocorrência de uma severa penalidade financeira e civil da companhia. A posição reportada no relatório de divulgação do 3T15 que a companhia alcançou produção trimestral recorde em sua história fica invariavelmente sob a desconfiança de “a que custo” toda esta performance tenha ocorrido. Seu próprio Relatório de Sustentabilidade informa um acréscimo de cerca de 3 milhões de toneladas em rejeitos resultantes do beneficiamento do minério de ferro. Os R$ 88 milhões declarados como investidos pela companhia na gestão de riscos ambientais certamente não foram suficientes. Autoridades, Justiça e mercado cumprirão seus papéis. O meu é entregar a todos a responsabilidade da análise fria e da decisão de investimento. Para aqueles que achavam que a queda de 32% de $VALE5 e 30% de $VALE3 em 12 meses aproximava o momento de entrar, vai aqui um sonoro NÃO. Aliás, na relação entre risco e recompensa e confiando em uma justiça coerente, séria e que defenda a sociedade e o meio ambiente com o rigor necessário, vem muita coisa ruim pela frente.  Será necessário muito mais que um Murilo e vários fundos de pensão. Preparem os cofres. Os bolsos não serão suficientes. Recomendação de venda para os dois papéis. E rápido!””

Assim Tuesday Caplet definiu seu entendimento do momento de $VALE5 e $VALE3. Se você terminou de ler este artigo, tem posições e o mercado ainda não fechou, agradeça… e venda logo. Este triste acontecimento provará inequivocamente que seja óleo ou lama, a sujeira custa caro demais. Sempre!

Até terça que vem!