Tuesday Caplet em: Teoria dos Jogos e a Guerra!

Poderíamos fazer tudo. Montar a estratégia de uso do novo recurso e ao mesmo tempo desenvolver a Teoria dos Jogos. O que isso tem a ver com investimentos?

A década de 30 foi muito agitada. Digo, 1930… afinal, foi minha quinta década de 30!

Já contei a vocês quanto me apliquei no New Deal. Roosevelt foi muito bacana comigo. Mais do que o reconhecimento direto, deu-me respeito. Passei a ser observado pelo primeiro escalão intelectual dos EUA.

Agosto de 1939. Recebi uma carta de Stanislaw Ulam. Era um ucraniano que conheci em Paris, no aniversário de Lacan alguns anos antes.

Caríssimo Sr. Caplet,

Com a expressa recomendação do Presidente F.D.Roosevelt, convido-o a integrar a equipe especial de um projeto sem precedentes na história americana e inglesa. Ainda não posso revelar detalhes, mas acredite, o Projeto Manhattan transformará para sempre as relações internacionais. Sua experiência em conflitos e situações de priorização de recursos será fundamental.

Em 11 de setembro teremos nossa reunião inicial. Contamos com o senhor.

Cordialmente

Ulam, Stanislaw

Minha relação com a família do Presidente havia ficado muito sólida nos anos 30, e ao pensar em mais uma vez saborear o “lobster bisque” de Eleanor Roosevelt já seria suficiente. Voei imediatamente para Washington. Um amigo da inteligência britânica esteve de alguma maneira envolvido na concepção do projeto. Aconselhou-me a partir imediatamente e jamais comentar com ninguém o meu paradeiro ou envolvimento com Manhattan.

Hoje muita gente fala sobre o que foi esta iniciativa. EUA, Reino Unido e Canadá trabalhando em conjunto. Matemáticos, economistas, sociólogos e cientistas. Não era a construção da bomba atômica. Era muito mais que isso. Uma colossal concentração de recursos trabalhando em algo que, ao mesmo tempo que tinha um poder de destruição único, seria usado como um ativo limítrofe entre a diplomacia e o caos. Não podemos esquecer que a II Guerra Mundial estava destruindo a Europa enquanto nos reuníamos.

Precisávamos compreender a dimensão dos danos eventuais. As consequências para as sociedades, para a civilização. Ainda que os americanos ainda relutassem em entrar nos combates, ainda muito concentrados na Europa, todos sabíamos que seria inevitável.

Na segunda reunião, sentei-me ao lado de John von Neumann. Ele era um matemático húngaro. Um dos maiores gênios que conheci. Parecia uma metralhadora falando. Até aquele momento, Jancsi (como gostava de ser chamado), parecia somente um matemático. Contava seu histórico no Instituto de Estudos Avançados de Princeton com a naturalidade de quem relata uma reunião de amigos!

Contou-me o quanto não aceitava a história da soma zero. A relação de obrigação absoluta entre um vencedor e um perdedor. Tratava as formas, normal e extensiva com uma facilidade incrível. Trocava as palavras muitas vezes. Pensei até que ele poderia ser disléxico, mas não. Era só ansioso. Vinha de quase um ano de discussões com Oskar Morgenstern. Jancsi tentava trazer o lado comportamental para a a Teoria dos Jogos. Foi aí que imagino ter ajudado ele um pouco.

Ao contar a ele como eu havia ido parar ali, falei sobre minha relação com Lacan, através de quem conheci Stan. Impossível não passar uma meia hora falando da Sybille. Ao mesmo tempo que parecia haver passado um século, o conjunto da “Dama de amarelo” e a fragrância de magnólia restavam vivas em vários momentos em que fechava os olhos. Era como se eu pudesse sorrir e dizer: “ela chegou”. Foco Tuesday!

Imaginem que loucura. Tínhamos bilhões de dólares à disposição para mudar o futuro da humanidade e estávamos a milhas dali, tentando dar mais vida à Teoria dos Jogos.

Leó Szilárd havia escrito e assinado com Albert Einstein uma carta ao Presidente Roosevelt alertando para “potencial de desenvolvimento de bombas extremamente poderosas de um novo tipo“. Reunidos ali, boa parte do estoque disponível de minério de urânio para pesquisa e um time brilhante, com um senso de urgência incrível. Se nós tínhamos aquilo, Hitler poderia também, ainda que a inteligência afirmasse categoricamente que a retórica Nazista e suas técnicas de combate em solo eram suas maiores virtudes (sob a ótica da guerra é claro).

Em um determinado momento, pedi a palavra e disse a Leó e Von Neumann: “jogos como estudados por economistas e jogadores no mundo real geralmente terminam em um número finito de movimentos. Matemáticos puros não estão restritos a isto, e na teoria de conjuntos em particular estudam jogos que se prolongam por um número infinito de movimentos, com os vencedores (ou prêmios) não são conhecidos até após todos estes movimentos tenham sido completados. O foco da atenção é usualmente não tanto qual o melhor caminho para o jogador em tal jogo, mas simplesmente se um ou outro jogador tem uma estratégia vencedora. Se não me engano é aqui que entra o axioma da escolha.”  

Poderíamos fazer tudo ao mesmo tempo. Montar a estratégia de uso do novo recurso e ao mesmo tempo desenvolver a Teoria dos Jogos. Os olhos de Jancsi brilharam. Trouxe um pouco de Lacan, sua percepção do Outro, Breuer e seu racional de equilíbrio. Mais do que uma arma… estávamos montando uma estratégia para aniquilar o inimigo. Qualquer que ele fosse.

Honestamente a idéia da bomba pouco me agradava. Mas eu devia muito à família Roosevelt. E não era pelos jantares. Seguimos até o fim.

A percepção de Jancsi era incrível. Determinou diversos movimentos dos aliados, principalmente após Pearl-Harbour.

Em 1944, com seu parceiro Morgenstern, von Newmann publicou “The Theory of Games and Economic Behavior”. Escrevi o prefácio da primeira edição. Uma das minhas maiores honras. Tragicamente um incêndio na Editora em Five Points eliminou quase todos os exemplares com meu texto. Pouco importa. Há dois em Princeton. Basta!

Confesso que viver os dias que suscederam Hiroshima e Nagazaki foram muito difíceis. Senti da maneira mais brutal o “vazio existencial” de Lacan. O “eu” narcísico estava ferido gravemente. Buscava o cuidador. Nem a Dama de Amarelo resolveria.

Precisei voltar às origens do verdadeiro Tuesday! Aquele que fez com que tudo fosse diferente, de uma terça-feira em diante. Lembrando de cada um dos momentos que me deram vida e seguem me renovando!

Boa! Vou investir nisso! Mercado volátil? Me aguarde. Hoje é Tuesday, e toda semana tem!

Ainda bem. Até a próxima aliás.