Tuesday Caplet em: Teoria Geral do Esquecimento

O índice CRY, de Commodities chegava aos 156,39 pontos, menor nível em 5 anos. Era hora de investir. Confira no Tuesday Caplet.

Em uma época em que as crenças mais diversas eram desenvolvidas, a ciência aparecia cada vez mais e o universo parecia ser até que enfim, compreensível, fui levado por um grande amigo a uma visita mística.

Encontrei uma mulher carrancuda, olhos firmes, que ao mesmo tempo tinham o peso da dor e a firmeza da convicção. Sem deixar de parecer lacônico.

Já não era surpresa que alguma coisa diferente eu tinha. Afinal, àquela altura eu já passava dos 182 anos e, digamos, isto não era muito comum em um Reino Unido com expectativa média de vida na casa dos 52 anos. Ao me olhar pela primeira vez ela disse: “Você tem a tríade. Tenha paciência filho. Você estará aqui por um longo período. O número 3 será incrivelmente presente em sua vida. Acredite em mim… você viverá mais do que qualquer outro, e compreenderá quão grande é a influência da tríplice verdade em sua trajetória. “

Mulherzinha esquisita. Escreveu com uma pena igual àquela que vi na casa de Shakespeare, em Stratford, dois números. Estendeu-me a mão e disse: “1002” e “2016”. Nunca esqueça.

Minha primeira reação foi entender que 1002, um mais zero, mais zero, mais dois, igual a três. 2016, dois, mais zero, mais um, mais seis, igual a nove! Três vezes três. Sinceramente não precisava ser nenhum Aristóteles para chegar a esta conclusão.

Tanto tempo passou sem que eu compreendesse o sentido daquilo. Busquei conforto na Maçonaria… vivia desejando um tríplice e fraterno abraço aos meus “irmãos”. Revisitei a história de Jacques de Molay, da sexta-feira treze, os 33 níveis dos maçons… Ainda não estava convencido. Sabem que como sou nascido na Escócia, cresci ouvindo sobre o Rito Escocês (antigo e aceito).

Outro momento em que tive esperança de entender aqueles números, foi quando trabalhei incessantemente com Gauss. Desenhávamos modelos tentando fazer com que um rabisco fizesse sentido profundo na análise estatística, probabilística, sentimental e metafórica das coisas. Usei e abusei daquela genialidade. Em uma das noitadas em Dortmund, o jovem Carl dizia que mal conseguia andar em linha reta. Eu disse a ele… “faça uma curva e siga em frente“. Anos depois fui ver que seu legado matemático seria chamado de “Curva de Gauss”. Menino atrevido, mas divertido.

Ainda não me parecia resolvido o enigma dos meus números.

A análise das estrelas e do zodíaco, dizia que os regidos pelo número 3 frequentemente eram ambiciosos, às vezes autoritários. Gostavam de ser independentes e a natureza jupteriana do número 3 oferecia a possibilidade de uma personalidade extremamente positiva e expansiva. Caso combinado com influência da Lua (regente de meu ascendente, Câncer) haveria grande possibilidade de uma personalidade idealista, resiliente, e profundamente engajada nos seus objetivos.

Instigado pela numerologia segui obcecado pela explicação. Já no último século, com o mercado de ações, todos os papéis que batiam as cotações de 10,02 ou 20,16 eu comprava. Estatisticamente falando, perdi dinheiro 81% das vezes em que usei este critério. Fiz isso em várias bolsas, com várias moedas e múltiplos setores.

Compreendi o quanto receitas pré-definidas a partir de assunções de premissas descoladas da realidade podem custar caro. Ainda bem que sempre mantive meus investimentos de valor em paralelo. Como vocês bem sabem, fiz meu pé de meia guardando e vendendo o bom e velho ouro. Outros tempos!

As coisas atualmente me parecem tão voláteis. Realmente, a normalidade é chata, mas olha, tem vezes que extrapola. As marcas das decisões equivocadas de investimento ficam para o resto da vida, ou ao menos deveriam. Uns ingleses que a juventude gosta cantaram que “cicatrizes são souvenires que nunca perdemos, o passado está sempre perto”.

A correta condição evolutiva tende a nos tornar mais críticos com o tempo. Mas imaginem meu problema, quando compreendi que viveria um pouco acima da média. Caso seguisse endurecendo meus critérios, ficaria insuportável. Minha vida em sociedade, assim como meus investimentos em qualquer coisa na vida, tornar-se-iam inviáveis.

Aí conheci a Teoria Geral do Esquecimento. Sabe aquela história de memória seletiva? Pois então. Já no final do século passado, um angolano resolveu contar uma história genial. Abordando a revolução e a guerra civil ocorrida em sua terra natal. A personagem principal resolveu construir um muro na porta de seu apartamento para se proteger e decidiu nunca mais sair de casa. “Os anos passam como líquidos”.

No meu caso, como rios de correntezas fortíssimas, intensas, batendo contra pedras, criando cachoeiras. Águas em diversos momentos frias, outros quase termais de tão quentes, mas sempre cristalinas.

Nesta correnteza da vida, investi certo e errado. Mas sempre com convicção. Nunca consegui esquecer as minhas falhas, mas aprendi a guarda-las em algum lugar atrás do muro que Ludo (a personagem do livro) construiu, aproveitando as lições que vinham invariavelmente com os erros.

 Janeiro de 2016.

Dois mil e dezesseis. Soma nove. Três vezes três. Um dos números escritos naquele papel há alguns séculos.

O mundo alardeava que seria o fim dos tempos no sistema financeiro mundial. A China faria com que os mercados mundiais entrassem em colapso. Teorias conspiratórias e em apologia ao caos e o fim dos tempos brotavam a cada dia. Li em algum lugar algo confortante. Uma análise falando sobre a não existência do tal “Armageddon chinês“.

O mês terminou e os investidores pareciam respirar. O mundo, ou ao menos o Brasil, havia parado por quatro dias! Era carnaval. Em uma noite agitada de sono, repleta de sonhos até então indecifráveis, pela primeira vez, pensei ter entendido os números. Era quarta-feira de cinzas. Dez de fevereiro. O dia em que os números convergiam. 1002, 2016. Lembram que contei que fui à Sapucaí não é mesmo? Achei que era ressaca.

Corri aos livros. O que significava aquele dia. Se olhasse para a numerologia, dez de fevereiro seria regido pelo número 1.

Os regidos pelo número 1 gostam de ser os primeiros no que fazem. Sobre 10 de fevereiro, o Sol tende a garantir as qualidades de um ego afetuoso e bem desenvolvido, com orientação distintamente humana e positiva. Também são regidos por Urano, que pode dar ao brilho do Sol uma coloração distintamente intelectual e nervosa. Os regidos pelo número 1 têm pontos de vista bastante definidos e, às vezes, intransigentes com relação à maioria dos assuntos, e podem, de fato, ser extremamente teimosos.

Ainda não era isso. Talvez um processo regressivo. Sabia que a minha ligação com aquele dia chegaria. Teria eu nascido neste dia em outra vida?

As características ali marcantes me pareciam autoconfiança e empatia. Era o que eu sentia ao acordar. E sabia, por alguma razão que era a energia da data. Os meus números mágicos convergiam.

2016 e 1002 haviam se encontrado. Corri para o terminal. A Bolsa chinesa seguia abaixo dos 3.000 pontos! O índice CRY, de Commodities chegava aos 156,39 pontos, menor nível em 5 anos. Era hora de investir. O mundo estava virando. Foi como se eu tivesse ali nascido de novo! Timing é tudo!

E sabe como são os nascidos em 10/02? Convictos, brilhantes, capazes de sensibilizar aqueles ao seu redor. Carismáticos. Responsáveis. Era isso. O dia da convicção, da virada.

Resgatei um recurso importante e investi. Uma combinação de um ETF ligado ao CRY e na Carteira Eleven, desta turma que me dá este espaço. Resultado: Valorização de 18,5% do ETF CRY e 20,05% da Carteira Eleven. Em 90 dias. Noventa! Três vezes três por dez vezes seguidas!

Não ganhei só dinheiro. Muito mais do que isso, a certeza de que este dia faria diferença em minha vida de uma forma que ainda nem dimensionava!

Quanto ao que passou e às vezes em que “apostei” sem entender as razões daqueles números? Deixo vocês com um pouco mais da Teoria Geral do Esquecimento, de Agualusa:

“Não se atormente mais. Os erros nos corrigem. Talvez seja melhor esquecer. Devíamos praticar o esquecimento.”

Até a próxima terça!