“Welcome to Hell”

A decisão pelo Brexit foi na última sexta-feira (23), mas os efeitos da escolha destrambelhada de quase 52% dos britânicos estão só começando.

Parece até conspiração. A Islândia eliminou a Inglaterra nas oitavas de final da Eurocopa. Fala sério! É daquelas semanas que quando a coisa começa mal, contamina todo o resto. Ainda se fosse só para os ingleses, tudo bem. Mas o que está fazendo mal a eles está afetando o mundo todo. A decisão do Reino Unido de sair da União Europeia foi na última sexta-feira (23), mas os efeitos da escolha destrambelhada de quase 52% dos britânicos estão só começando. Passados estes poucos dias, vai se confirmando aquela sensação de que eles não tinham ideia da repercussão de uma vitória do Brexit.

Como ninguém deu muita bola para o evento – menos nós! A Eleven Financial alertou os perigos desta possiblidade em Fevereiro! Voltando…Tirando a Eleven Financial e alguns gatos pingados, ninguém levou a sério a brincadeira dos separatistas. Então, não houve alarde suficiente para convencer os indecisos, ao contrário, quem mais gritou no megafone foram os apoiadores do próprio movimento. Deu no que deu. Já tem analista político dizendo que se fosse feito um novo plebiscito agora, haveria grandes chances do resultado ser diferente. Mas agora a batata já assou e amassou.

E assou de um tanto que fez queimar o grande selo de país rico-desenvolvido-seguro-maior-do-mundo. As agências Standard & Poor’s e Fitch rebaixaram a nota do Reino Unido nesta segunda-feira. A S&P tirou o “Triplo A” e a Fitch trocou o sinal de “+” pelo de “-” na classificação que agora é “AA-“. Eram as cerejas em cima do bolo já encruado – e o que é mais indigesto – certamente não serão as últimas. Não há consenso sobre o prazo, os custos, os efeitos (nefastos e inevitáveis) e muito menos sobre a liderança da transição. O primeiro ministro renunciado David Cameron já avisou que a “decisão precisa ser aceita”, só faltou emendar um “ninguém mandou”.

Com ou sem arrependimento, os ingleses terão que encarar a nova realidade que se auto impuseram. A libra esterlina alcançou hoje a mínima em 31 anos e esse processo de enfraquecimento deve continuar nas próximas semanas, enquanto o BoE (Banco Central da Inglaterra) não agir e os efeitos do Brexit não forem completamente calculados.

O Euro segue mesmo caminho e o mercado espera que Mario Draghi reassuma o timão e guie a região rumo a retomada de crescimento.

A semana promete ser de mais volatilidade.

Balançando mais que barquinho em alto mar revolto, o mercado financeiro do mundo todo sofre e sangra. O setor financeiro tem registrado perdas enormes e este movimento é o reflexo cristalino do custo gigantesco que está se formando em decorrência do Brexit.

Aqui no Brasil não poderia ser diferente! A bolsa de valores de São Paulo oscilou entre o ruim e o muito ruim durante o dia e acabou fechando com perdas de 1,72%, voltando para baixo dos 50 mil pontos. O dólar também experimentou maior valorização durante os negócios mas a alta arrefeceu e a moeda americana fechou pertinho os R$ 3,40. Ainda assim, mais uma vez tivemos uma performance melhor que nossos pares emergentes. O fato de termos a maior taxa de juros real do mundo, termos reduzido o déficit em conta corrente e apresentarmos o maior volume de reservas internacionais da América Latina tem limitado o impacto dos choques externos para o Brasil.

Porém, com ou sem Brexit, as turbulências nacionais seguem seu ritmo e o Brasil continua se debatendo com suas jabuticabas amargas e secas. A mais difícil de engolir é a dos juros do cartão de crédito e do cheque especial: 471% e 311% respectivamente. Imagine se os britânicos tivessem que pagar por isso com ou sem a União Europeia? A monarquia teria ruído em pedacinhos. Mas aqui não. Aqui o brasileiro paga por falta de opção e por um isolamento cruel do mundo dos sensatos. Lá no Galeão, aeroporto internacional do Rio de Janeiro, está sendo recebido por uma faixa sustentada por servidores públicos do estados: “Welcome to Hell. Police and Firefighters don’t get paid, whoever comes to Rio de Janeiro will not be safe”. E os ingleses achando que têm todos os problemas e a culpa do mundo. O “hell” também é nosso!